Renata Quer Voltar


Renata mudou muito desde sua adolescência.

Da menina bobinha que vivia amedrontada em igrejas, ela se tornara uma mulher articulada, inteligente, cabeça aberta e sempre pronta para o diálogo.

Quando de seus 14, 15 anos, Renata desejou por várias vezes entender certas imposições que sua religião lhe fazia. Certas coisas que todos aceitavam de bom grado eram para ela verdadeiros absurdos. Como podia uma comunidade de pessoas quietas, aceitando tudo que lhes era imposto, sem sequer perguntar o por que? Mas Renata também não perguntava, pois se ao menos ousava questionar era taxada de baderneira, rebelde, herege, filha do diabo, e outros nomes típicos dos ambientes religiosos. Ela achava curioso que sua comunidade religiosa pregava absurdos e tomava o cuidado de criar sistemas de lavagem cerebral, impedindo que qualquer pessoa viesse questionar o que era falado nos microfones. Coisas como "não falem mal dos pregadores", "não duvidem da mensagem de Deus", "quem duvida do que eu falo duvida de Deus", "quem duvida é filho do diabo" e outros eram os argumentos que esses líderes usavam para vomitar suas ideias malucas e serem aceitos sem qualquer probema maior.

Renata queria sair disso, viver de forma livre, queria pensar pela sua própria cabeça. Achava que a vida em liberdade seria a melhor forma de viver. Queria sair, mas não conseguia. Pela pressão da família, falta de certeza se estaria memso fazendo a coisa certa ao sair. Mas Renata não conseguia sair por um motivo especial: aquele era o ambiente dela. Boa parte dos compromissos que ela tinha que honrar estavam lá. A maioria parte das pessoas com quem ela tinha amizade estavam lá dentro (já que a igreja proibia fazer amizade com pessoas que não fossem da mesma religião). Aquele era o universo de Renata. Sair daquilo significaria uma mudança brusca, ter de aprender a viver um novo estilo de vida, uma nova forma de organizar suas ideias, e o principal: novas pessoas, novos compromissos, um novo mundo.

Um dia Renata tomou coragem e saiu. Virou as costas para a religião e decidiu viver de forma inteligente, onde ela tivesse a liberdade de receber informação de onde quisesse e formar sua própria opinião a partir do que ela considerava certo, sem a imposição de um líder espiritual. Agora Renata não tinha mais medo de questionar, pois sabia que suas perguntas não levariam a algum inferno. Aliás, ela duvidava até da existência desse tal inferno que os religiosos gostam tanto de citar. Renata podia pensar com sua própria cabeça. Podia ler o que quisesse, fazer o que quisesse. Do medo que a religião impõe às pessoas ela estava livre. Aparentemente, essa seria a vida perfeita.

Mas as coisas não correram tão bem para Renata como ela imaginava que aconteceria. As pessoas com quem ela convivia antes passaram a ignorá-la. Os que antes se diziam amigos agora a chamavam de "herege", "desviada". Quem sempre a abraçava agora passava pelo outro lado da rua. Mas Renata conseguiu lidar bem com isso. Sabia que a religião faria com que as pessoas a vissem como uma desertora. Mas o grande problema de Renata foi outro: ela tinha saído de um universo, mas não encontrou outro para entrar.

Renata deixou um modo de vida, mas não sabia o que fazer agora. O excesso de liberdade era pra ela algo difícil de assimilar. Renata não sabia como viver de forma livre. Estava entrando num mundo desconhecido, e não sabia se virar nele. Se sentia um viajante sem mapa numa cidade desconhecida. Não sabia que rumo tomar, a quem recorrer, o que fazer. Agora Renata era uma pessoa livre que não sabia para onde ir. Era uma pessoa inteligente que não tinha onde ficar.

Renata entrou num mundo de pessoas diferentes de tudo o que ela conhecia. Não sabia se relacionar com pessoas que cresceram livres da imposição religiosa a que ela esteve exposta. Pra piorar, Renata descobriu que o mundo das ideias livres nem sempre é acolhedor. Ela descobriu uma característica humana que não sabia existir: as pessoas não se importam nem um pouco com quem acabou de chegar. Nesse mundo onde as pessoas pensam sem culpa, onde vivem de acordo com suas conveniências os novatos sempre serão tratados como o "estranho, que não conhece nossos hábitos".

Foi quando passou pela cabeça dela uma ideia que ela nunca imaginou um dia ter: ela quis voltar. Apesar de toda a repressão com que teve de lidar durante seu crescimento, Renata sentiu falta de ter um ambiente. Sentiu saudades do tempo em que tinha a quem cumprimentar, com quem conversar, do que reclamar, com quem se preocupar.

Não, ela ainda não sabe o que vai fazer, se volta ou se fica. Voltar é uma possibilidade remota, mas para ela a adaptação ao "novo mundo" tem sido cada vez mais difícil. 

Renata descobriu que mudar pode ser mais difícil do que se imagina.