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Irmã Josefina | #Opinião

Bolsonaro e o ex-Ministro da Educação, Abrahan Weintraub


Irmã Josefina é bastante conhecida na igreja evangélica onde cresci. Na época em que eu ainda frequentava a igreja, ela era uma senhora bastante humilde, que precisava de apoio social da igreja para alimentar seus filhos. Seu marido - não era casada, apenas vivia junto com ele há anos - a agredia constantemente de forma covarde, com socos e pontapés na cabeça, e todo mundo sabia, mas não fazia nada, pois na rua ele era um sujeito bastante agradável, desses que conversam com todo mundo. Uma vez perguntei porque ninguém denunciava, mas ouvi que "em briga de marido e mulher ninguém mete a colher". Na igreja era uma mulher discreta, que era proibida de participar de qualquer atividade não pública - cantar em conjuntos, tomar Santa Ceia - pois não era casada, ou seja, "vivia em pecado", como o pastor dizia. Sim, na visão da Igreja ela não deveria se separar, e sim se casar com o homem que chutava sua cabeça.

Acontece que, com o passar dos anos, Irmã Josefina foi mudando. Da senhora discreta, que passava quase despercebida nos cultos, passou a orar mais alto. E mais alto. E mais alto. E suas orações se tornaram gritos estridentes, que depois evoluíram para o que ela dizia serem "mensagens de Deus". E profetizava em todos os cultos. Dizia ter tido sonhos e relevações sobre acontecimentos futuros. Mas o que ela mais gostava de fazer mesmo era denunciar pecados em público, no meio dos cultos. Dizia ser a guardiã da sã doutrina, e que Deus a havia escolhido para limpar os pecados da igreja. E aí o ceu era o limite - desculpe o trocadilho. Apontava o dedo para mulheres e dizia que elas estavam "em adultério", os jovens todos estavam sob o pecado da masturbação, adolescentes estavam condenadas ao inferno por terem cortado as pontas do cabelo, e não parava mais. E o pastor da igreja? Permitia tudo, pois dizia que irmã Josefina era "ungida de Deus", "profeta" e outras coisas mais. Certa vez chegou a ameaçar agredir uma garota que exibia um leve traço de decote em sua blusa.

Mas a Ana, filha da Irmã Josefina sabia que algo estava muito errado.

Sabendo da história de vida da mãe, presenciando as agressões, e vendo o comportamento estranho nos últimos meses, Ana tomou a decisão que muitos filhos demoram pra tomar, pelo medo de assumir que a própria mãe tem problemas: levou Irmã Josefina em um psiquiatra. Após algumas sessões e bastante conversa, o médico diagnosticou clinicamente o que muita gente na igreja sabia, mas não tinha coragem de falar: Irmã Josefina sofria de um quadro grave de esquizofrenia. Receitou medicações e, em menos de uma semana, a evolução era nítida. Os gritos e as profecias de Irmã Josefina sumiram. A mulher agressiva que denunciava pecados sumiu e deu lugar à discreta e tranquila mulher de antes. O marido agressor foi embora de casa, mas nunca foi denunciado.

E por que ilustrar essa história com uma foto do Bolsonaro?

Poucas pessoas tem coragem de dizer isso, mas há algo muito errado com Jair Bolsonaro. Suas bravatas, seus discursos, a forma como se refere ao Exército como se fosses seus soldadinhos de plástico, e sua reação à pandemia fogem à qualquer senso mínimo de razão. Em um momento ele se comporta como aquele tiozão piadista de churrasco que nunca saiu dos anos 70; depois age como um genocida cruel e sanguinário que mereceria um aperto de mão de Hitler; em outro momento é o Messias escolhido por Deus para livrar o país das mãos nefastas do comunismo e entregar à Igreja Evangélica, a única representante de Deus na Terra. 

Bolsonaro me lembra muito a Irmã Josefina. 

Bolsonaro é mais do que um homem despreparado para o cargo que ocupa. Isso a Dilma também era. Bolsonaro criou uma realidade paralela para si, onde ele conseguiu o que queria. Chegou ao cargo máximo da nação e, com isso, assumiu a posição de responsável pelo bem estar da família tradicional brasileira. Assumiu para si a função de combater o comunismo, derrotar a "ideologia de gênero", e promover a liberdade. Além disso, ele conseguiu se vingar do Exército que o expulsou em 1988. De "incompatível com o oficialato", virou o Chefe Supremo. Sonha em precisar colocar o Exército na rua, e para isso busca os motivos mais absurdos, mas não para defender qualquer coisa, e sim provar aos generais que agora é ele quem manda. Sua lealdade às Forças Armadas escondem o sentimento de vingança. E ele não se furta em criar crises para ter onde usar o soldados. Assim como uma criança de 8 anos que brinca com seus soldadinhos de plástico e cria guerras grandes e barulhentas, Bolsonaro sonha em fazer o mesmo, mas agora com um Exército de verdade. 

Bolsonaro é esquizofrênico, em um grau grave e que necessita de cuidados urgentes. 

Ele precisa ser parado urgentemente, e por motivos de saúde. 

Será que ninguém na família percebeu isso? Sim, esposa e filhos com certeza perceberam isso. Mas diferente da Ana, filha da Irmã Josefina, os Bolsonaros jamais farão qualquer coisa a respeito da esquizofrenia do Louco Mor, principalmente porque convém a eles. 

Aos filhos, porque o papito não se sente minimamente constrangido em fazer o que for para proteger os filhos, mesmo que esses tenham feito as piores cagadas na vida. Se for preciso, troca delegados, investigadores e até Ministro, se for necessário pra proteger os filhos. Considerando que, de toda a prole bolsonarista, apenas a pequena garota não tem nada para se explicar, esse é o pai dos sonhos: faço o que eu quero, e na hora que der ruim papai me livra. Por esse motivo, os filhos saem em defesa do pai a cada arroubo de loucura: eles precisam do pai louco desse jeito. É melhor para eles.

E a esposa? Bom, pelos gastos de cartão corporativo, pelos amigos e maquiadores transportados em aviões da FAB, ela demonstra estar muito bem com a vida atual; talvez ser casada com um louco e ter a vida sexual exposta ao público pelo próprio marido seja um preço razoável a pagar. 

Irmã Josefina e Bolsonaro, guardadas as devidas proporções, são muito parecidos. A diferença é que a pobre irmã da igreja se curou. Já o Presidente...

Precisamos parar com a cultura de "jogar no lixo" o que não serve mais | #Opinião




A pandemia escancarou algumas das piores mazelas dessa sociedade. Uma delas é a cultura de jogar no lixo qualquer coisa que aparentemente não sirva mais. Uma reportagem do UOL mostrou que enfermeiros abriam um frasco com 10 doses de vacina da Astra-Zeneca, usavam uma dose e, por falta de demanda, jogavam as outras 9 fora. Estamos pagando bilhões - sim, estamos, pois é o nosso dinheiro - por essas vacinas, para profissionais simplesmente jogarem fora. Por que? Porque é assim que se faz no Brasil. 

Perto da minha casa, dentro de um parque, está o Museu do Lixo, que tem apenas coisas retiradas da represa que fica aqui perto. E com isso o Museu tem uma casa mobiliada completa: sala com sofá de 2 e 3 lugares, estante, TV, tapete, quarto com cama de casal, colchão, guarda-roupa cheio de roupas, cozinha com mesa, fogão, geladeira, armário de parede. Tudo retirado da represa. 

Já conheci pessoas que trabalhavam com coleta de lixo - os "lixeiros" - e todos eles falam a mesma coisa: a quantidade de coisas boas e novas que se encontra nos lixos. 

Outros países tem uma cultura de restauração e doação muito forte. O que não me serve mais serve para outro. O que eu não voou usar mais posso doar para alguém. O que está quebrado pode ser consertado. O que está com uma aparência ruim pode ser pintado. Mas não por aqui. No Brasil jogamos tudo no lixo. E muitas vezes sequer da forma correta. Apenas abandonamos na rua ou nas represas. 

Enquanto não nos conscientizarmos de que somos um país com diferenças sociais gritantes e continuarmos com a cultura de jogar no lixo o que não serve, veremos cenas como essa. 

No Brasil se joga qualquer coisa no lixo. Até mesmo a vacina para a Covid.

Vocês Pensaram Que Eu Não Ia Falar da Anitta Hoje? | #Opinião




Sim, sou um admirador da Anitta. Meus alunos de espanhol, que já tiveram que cantar algumas das músicas dela, sabem bem disso 😆 Não sou fã, primeiro porque as músicas dela não fazem parte do meu estilo preferido, e também porque "fã" me lembra o "fanático", que acompanha e se sente no direito de opinar na vida pessoal do artista. Eu, no máximo sei o nome real dela, Larissa. Por mim ela pode pegar o ex da Piovani, jogador de futebol, até o Sílvio Santos, se ela quiser. Isso é a vida pessoal dela. 

O que admiro é o que eu chamo de "Marca Anitta", a forma como ela gerencia a própria carreira. Sem dúvidas, a Anitta hoje é um dos maiores cases de sucesso empresarial do Brasil, tanto que sempre é lembrada por publicações do meio empresarial, sempre é convidada para programas de TV que falam de negócios ou para eventos e palestras para empreendedores. Mais do que uma mulher que "só rebola a bunda" (uma bela de uma raba, diga-se de passagem 😉), a Anitta é inteligente, estrategista e sabe fazer dinheiro. Ouvi-la falando sobre o começo da carreira, sobre a teimosia dela em estar presente no meio dos principais nomes da música carioca quando ainda era só uma estagiária na Vale, da escolha entre investir na música ou ser efetivada no estágio, é perceber que certos princípios do sucesso empresarial podem ser aplicados em qualquer área, até mesmo no funk carioca. 






Pra quem tem a origem humilde que ela teve, estar onde está hoje é inspirador. Sem origem privilegiada nem qualquer aporte de nenhum parente rico (tipo uma certa especialista em finanças que diz ter começado do nada mas "ganhou" um carro zero e uma conta bancária cheia de números da tia quando completou 18 anos) nem ajuda de quem quer que seja, ela teve que subir sozinha cada degrau, um por um, com trabalho, conhecimento e esforço. É essa inspiração que ela me transmite. Não tem raba que tenha a força de levar uma mulher ao patamar que a Anitta alcançou. Isso é inteligência emocional e empresarial, estar antenada ao que acontece no mundo, dar a cara a tapa e não ter medo de fazer cagada. 

Do ponto de vista comercial, ela vende muito mais do que o sexismo e a hiperssexualização do corpo da mulher. Ela vende entretenimento, vende afirmação feminina, vende liberdade de ser a mulher que se quer ser, seja pura ou "piriguete". 

Goste dela ou não, goste das músicas dela ou não, não dá pra negar que ela é hoje o maior nome da música pop brasileira no exterior, fato esse conquistado aos poucos, com planejamento de marketing e de carreira. 

Resumindo: a Anitta é um mulherão da porra! 

E, pra concluir, você tem todo o direito de não gostar dela, da forma sexualizada como ela se apresenta, de a achar "vulgar", "mulher fácil" e etc. Mas você fica também automaticamente proibido de gostar de nomes como Shakira, Beyoncé, Usher, e de 90% do axé brasileiro, que tem a mesma essência das músicas da Anitta. Ou você mantém a coerência ou assume o preconceito.

Será que deus existe?




Estou em uma nova crise de fé. 

Nasci em um ambiente bastante religioso ou, como diria um certo senhor autoproclamado cristão, em um lar "terrivelmente evangélico". Meu nome não é Weslley por acaso, aliás. A inspiração vem do  maior nome do protestantismo tradicional inglês, John Wesley, um dos criadores da Igreja Metodista - não, na época em que nasci o Safadão ainda não era famoso, talvez nem fosse nascido. Segui todo o ritual esperado de uma criança nascida em ambiente cristão: cantei no conjunto de crianças, me batizei aos 14 anos, cantei no conjunto de jovens, preguei em púlpitos, cantei, participei de congressos, tirei fotos com pastores, era admirado pelas irmãs do círculo de oração. Além disso, venho de uma família devota quase fanática da Assembleia de Deus, maior congregação pentecostal brasileira e a segunda mais antiga do Brasil. Meus avós e todos os tios foram batizados lá. Mais do que vir de uma família evangélica (ou "nascer em berço evangélico", como se diz por lá até hoje), cresci em um "Christian Way of Life", um estilo de vida baseado no pentecostalismo, que vai muito além de se declarar membro de uma igreja evangélica. Há todo um modo de se comportar, de pensar, de encarar a vida e as coisas em geral baseado no cristianismo pentecostal, que extrapola e muito os limites físicos da igreja. Essa é a diferença entre os "praticantes" e os "simpatizantes". Sei todas as palavras certas a serem usados nos momentos certos, todas as gírias evangélicas, todos os jargões, como pensam, as estratégias para cativar multidões. Conheço inclusive as "línguas estranhas" que os pentecostais gostam de usar em seus cultos. Sempre brinco que, se eu quisesse, poderia hoje mesmo me declarar pastor e abrir uma igreja. Com o conhecimento do modo cristão de vida, mais as técnicas de marketing adquiridas nos anos de experiência da profissão, em pouco tempo eu teria uma igreja forte em termos de público - e em arrecadação. 

Só que, com a adolescência e os desejos "impuros" da puberdade, além do ingresso no ambiente universitário, que me proporcionou contato com outras formas de pensamento, depois de conhecer a filosofia, a sociologia, ao conviver com pessoas de fora da minha bolha cristã e perceber que elas não eram tão satânicas como a igreja me havia feito crer a vida inteira, me permiti fazer algo até então impensável para um membro fiel de uma igreja evangélica:

Questionar minha fé. 

De início, e por muito tempo, me questionei apenas a forma como Deus era apresentado, como um homem controlador, que mantém o mundo em suas mãos, sob rígido controle, e pune ferozmente quem lhe desobedece, com doenças ou problemas sérios (o que é chamado de "pesar a mão") até que a pessoa se arrependa e passe a frequentar uma igreja evangélica. Questionei esse deus e, para minha surpresa, conheci diversas pessoas que também o questionavam. Não só pessoas, mas conheci igrejas que também questionavam o Deus sádico que sente prazer em punir. Enfim, resumindo 22 anos da minha vida em um parágrafo, tomei uma decisão que para muitas pessoas é algo simples e banal, mas que para mim foi a maior decisão da minha vida até então:

 Sair da igreja onde cresci 

Migrei para a Igreja Betesda, principal nome evangélico desse movimento que questiona o deus controlador dos pentecostais e apresenta um deus amoroso, parceiro e que sofre junto com a humanidade, um Deus que não intervém em nada por respeitar o livre arbítrio, mas que está ao nosso lado para apoiar e dar forças. Essa mensagem me convenceu e me manteve satisfeito em minha fé por um bom tempo. 

Só que, como humanos que somos, somos eternamente insatisfeitos, comecei a me permitir questionar inclusive essa mensagem do Deus frágil e sensível pregado pela nova corrente evangélica. Me permiti fazer uma simples pergunta: se Deus não me protege de nada, se Deus não me livra de perigos, se Ele não me protege de assaltos, assassinatos e toda a sorte de maldades desse mundo, se ele não cura doenças, se não fala comigo, tudo isso para "não interferir no livre arbítrio humano", por que eu preciso criar uma estrutura imensa, pesada e cara, para crer nele? Ou seja,

Para que crer em Deus? 

Na visão dessas igrejas, Deus passa a ser uma espécie de "amigo imaginário", para quem você conta todos os seus problemas mas sabe que não terá qualquer resposta. A função de Deus nesse caso é menos válida que a de um psicólogo ou de um coach, pois o profissional pelo menos te ajuda a encontrar caminhos a seguir. Se levarmos essa visão de fé ao pé da letra, Deus seria facilmente substituível por uma roda de colegas, por um grande amigo, por uma esposa ou marido parceiro. 

E novamente aqui estou em em minha crise de fé.

Crer ou não crer em Deus? Ele existe? 

Tenho sérios receios de declarar minha "não crença" em deus. Primeiro porque não estou no meu melhor momento psicologicamente falando, e a ausência da figura de deus faria eu me sentir sozinho demais criaria um vazio que não sei como preencher. Por maiores que sejam minhas dúvidas, ainda me sinto bem agradecendo a Deus no fim do dia,  ou pedindo a ele que me oriente quando estou em dúvidas. Se ele atende? Não sei, mas gosto de agradecer.

Essas crises são maiores aos domingos de manhã ou a noite, horários de culto na Igreja Betesda. Já faz alguns meses que não apareço na igreja, e a cada domingo me sinto um puco mais culpado por isso. Mas quando estou lá, as vezes me sinto meio deslocado, como se não conseguisse acreditar piamente da forma como as pessoas que lá estão acreditam.

Ainda não sei o que fazer. Essa não é uma questão crucial, que preciso resolver a toque de caixa, então o que vou fazer é

Esperar

Esperar até que eu me sinta orientado a fazer a coisa certa. Quem sabe o próprio Deus não me oriente. Sim, Deus, se você existe, essa é uma oração: me ajude, eu tô precisando.