Ela




Ela estava lá. 

Perto e inacessível. 

Comigo, mas sozinha.

Ao meu lado, mas distante.

E eu, que queria tanto pode dizer a ela o que ela realmente significava, tive de engolir em seco, e apenas estar ali, sendo mais um entre as milhares de pessoas que a rodeavam. 

Queria dizer que estar ali com ela significava muito pra mim. 

Mas não disse. 

Apenas ri de alguma piada boba e continuei com ela, mas sozinho. Ela sorria como se gostasse da companhia, mas da companhia de alguém legal, um entre tantos outros vários que ela já devia conhecer. 

Eu era apenas mais uma companhia legal. E assim preferi permanecer. Não por minha vontade, mas porque as circunstâncias assim me obrigavam. 


Sob o brilho da lua



São mais de onze da noite, e a lua cheia insiste em roubar a visão de qualquer um que se aventure a olhar para cima. Da sacada da janela do quarto andar de um hotel barato e sem qualquer luxo Fernando olha a lua, que fica embaçada vista por detrás da fumaça do cigarro. No velho rádio Maysa enche o ambiente com Meu Mundo Caiu. O único ítem que adiciona algum glamour ao ambiente é o vinho do porto sobre a mesa de ferro ao lado da cama, onde também está a foto da esposa, a mesma a quem dedicara tanto amor e que agora não queria nem vê-lo. Já está hospedado ali há alguns dias, e pretende sair dali logo. Não sabe quando voltará para casa. Não sabe se voltará para casa. Sabia que a casa que fora sua, apesar de ainda a pertencer, não era mais seu lar. Não era mais bem vindo por lá. Fora enxotado do ninho que construíra com tanto carinho. Esqueceu-se por um momento da lua e passou a olhar a foto da esposa. Ela sorri, olhando para o lado, como se algo tivesse roubado a atenção dela logo no momento em que a foto fora tirada. O que a teria feito desviar o olhar? Não sabia, mas agora se via na mesma situação do dia em que aquela foto fora tirada: ele concentra toda sua atenção na mulher que ama, enquanto algo fútil desvia a atenção dela. Sofria por estar ali, mas sabia que não havia outro remédio. 

Não havia jantado e não iria jantar. Não tinha fome. Naquele momento tinha outras sensações mais importantes para sentir. O medo do abandono. A sensação de não pertencer a lugar algum. Sabia que uma simples ligação para a recepção encerraria seu vínculo com aquela espelunca. Mas não fora também uma ligação que havia acabado com vinte e cinco anos de um relacionamento estável? Nada de mais, nada de brigas intermináveis, nada de escândalos na rua, de pratos quebrados. Apenas uma ligação, e um "eu não te amo mais" foram o suficiente para encerrar uma fase na vida de Fernando. Como aquilo havia acontecido? Quando o amor de sua querida Sabrina havia acabado? Não perguntou nada disso. O amor havia acabado, e era a única coisa que precisava saber. Qualquer coisa a mais seria excesso de informação. Diante da expressão fria de sua ex-amada, reuniu o que era seu, colocou em uma mochila se seguiu sua vida, sem saber para onde. Levava nas costas o que sobrara de anos de construção, de trabalho, de dedicação. Tudo cabia numa bolsa. Só então percebeu que as únicas riquezas que havia acumulado na vida não eram físicas. Eram imateriais. E essas riquezas se foram água abaixo, junto com o amor de Sabrina. 

Ainda pensava quando a campainha tocou. Apagou o cigarro no batente da janela e foi até a porta. Do outro lado uma mulher de minissaia jeans e camiseta transparente o aguardava, fumando e com uma bolsa minúscula. Não parecia ser tão nova, mas não era velha. Era bonita, até. Nem era tão gostosa como dizia ser no anúncio do jornal velho que encontrara na cama do quarto quando entrara ali pela primeira vez, mas servia. Fez sinal para que entrasse. Tirou da carteira o dinheiro e entregou à Brenda, a garota de programa que havia contratado para aquela noite. Fez sinal para que ela se deitasse na cama e ele se sentou ao lado da mesa de ferro. Tirou os sapatos, a meia, a calça, camisa, cueca. Olhou a foto de Sabrina sobre a mesa. Tirou a aliança do dedo e colocou em frente ao quadro. Deitou-se na cama e, sob o brilho da lua cheia e ainda ao som de Maysa, Fernando transou loucamente com a mulher que havia pago para ser sua durante algumas horas. 

Ele estava a fim de você. Não está mais.





E no final de tudo aquele cara, aquele mesmo que você chamou de amigo, aquele a quem você confidenciou segredos que nem seus pais sabem, aquele para quem você desabafou quando estava se sentindo mal, aquele com quem você pôde contar sempre, era exatamente esse o cara que estava a fim de você. 

Sim, menina. Ele estava a fim de você. 

Claro, ele adorava, como ainda adora, ser seu amigo. Ele gosta da sua companhia, gosta de passar horas conversando com você, seja conversas sérias sobre a vida ou sobre a religião, seja bobagens corriqueiras ou fofocas da vida dos outros. Mas ele queria algo a mais com você. E você não percebeu. 

Mesmo sabendo de todos os seus defeitos, mesmo conhecendo a bagagem pesada que você tem chamada passado, mesmo sabendo da vida complicada que você leva, ainda mais comparada com a vida leve e simples dele, ele estava a fim de embarcar nessa. Estava a fim de te conhecer mais do que como uma "amiga" e, mesmo que tivesse que enfrentar um mar agitado, ele estava a fim de aprender a nadar para cair de cabeça nesse mar. Tudo para ter algo a mais com você. 

Ele estava apaixonado? Talvez essa não seja a palavra, visto que paixão é coisa boba, sentimento tolo que apenas os adolescentes se podem dar ao luxo de ter. No alto de sua maturidade, ele queria mesmo era te apoiar, poder te abraçar quando você se sentir sozinha e te dizer o quanto você é especial, o quanto você é forte, o quanto ele se sente privilegiado por ter uma menina firme e doce como você.  Queria poder te beijar e te dizer para ficar tranquila. Ele queria sim ser seu porto seguro, ser a mão onde você pode segurar, o corrimão onde você pode se apoiar quando precisar subir os degraus íngremes da vida adulta. Ele estava disposto a ser aquele que você poderia chamar de "o homem da minha vida". 

Mas você não percebeu nada disso. 

Não só não percebeu como preferiu continuar procurando entre as mesmas figurinhas repetidas de sempre, como se estivesse em uma grande loja de roupas, mas procurasse sempre apenas peças da mesma seção, e insistisse em encontrar algo diferente, mesmo sabendo que irá encontrar apenas mais do mesmo. Você se deixou levar por status, por condição financeira, por coisas efêmeras que o tempo leva embora tão fácil como vieram. e com tudo isso abriu mão te algo com quem realmente te queria de verdade, com a sinceridade e a "sorte de um amor tranquilo". 

E agora? Agora ele não quer mais. 

Não quer porque, antes de querer você, ele tem algo raro chamado "amor próprio", amor esse suficiente para o privar de se entregar a algo não correspondido. Ele sabe que, mais ainda que te querer, ele quer bem a ele mesmo, o bastante para que ele não se dê ao luxo de sofrer por alguém que não o vê mais do que um amigo. Se é amizade, que seja amizade. Assim será. Assim agem as pessoas maduras, e assim ele agirá. Aprendeu isso de forma fácil? Não, perdem-se as contas de quantas vezes ele quebrou a cara em amores não correspondidos, até que aprendesse a se amar antes de amar outra pessoa. Se a outra pessoa não o quer, ele se quer. E isso é tudo. 

Ele estará lá para sua amizade, quando você o procurar. Mas agora a vida dele segue normalmente, até que encontre outra pessoa - ou outra pessoa o encontre - e possa recomeçar essa ladainha chamada "estar a fim". 

Eu Prometo | #Reflexão





Ainda não te conheço. Não sei onde você mora, com quem mora, não sei da sua vida, seus costumes. Não sei sua fisionomia. Se é loira, morena, ruiva, cor natural ou com tintura, alta ou baixinha, magrinha ou gordinha, se faz o tipo "gostosa" ou não, se tem dentes perfeitos ou se ainda usa aparelho. Se tem o cabelo liso ou encaracolado. Não sei se seus lábios são pequenos ou grandes, se seus olhos são castanhos ou verdes, se seu rosto é oval ou quadrado. Não sei se tem personalidade forte ou se é maleável. Se gosta de ter sempre a última palavra em tudo ou se está sempre aberta a outras opiniões. Não sei o que você gosta de fazer aos domingos à tarde, nem nos sábados à noite. Não sei se você gosta de café fraco, bife malpassado, Nutella ou pipoca de micro-ondas. Não sei se já tem quase trinta ou se acabou de completar 18. Não sei quem são seus amigos, se você é tímida como eu ou expansiva, se é popular ou passa despercebida, se gosta de baladas ou prefere comer pizza em casa. Não sei quem são seus pais, se são gente boa ou implicantes que pegam no pé da filha, não sei se tem irmãos ou irmãs, se já tem sobrinhos, quem são seus tios, tias, avós, primos. Não sei se você já tem filho ou se ainda é virgem. Não sei quais são seus costumes. Não sei se vem de família tradicional ou moderna, se a família é perfeita ou se tem brigas entre tios. Não sei quais são seus medos. Não sei o que te faz sentir receio, quais são seus limites físicos e psicológicos e o que te assusta. Não sei quais foram seus relacionamentos anteriores, se sofreu com eles, se amou muito, se foi enganada, se enganou, se chegou ao noivado, se jurou amor eterno, se usou aliança, se talvez foi até casada. 

Não, eu não sei nem quem é você. Talvez nem saiba se você existe, de fato. E você também não sabe quem eu sou. Pode ser que você também nem saiba que eu existo. Mas te prometo uma coisa: quando te conhecer e você me der a chance de te conhecer, vou te amar como nunca amei ninguém na vida.

Prometo ser a base da sua vida, para onde você sabe que pode recorrer sempre que precisar. Prometo ser o ombro quando você precisar desabafar sobre sua irmã que anda falando mal de você pra sua mãe, ou da colega do trabalho que quer te passar a perna. Prometo ser o seu "maior amigo, melhor amor". Prometo ser o braço que vai te sustentar e proteger de cair quando você tropeçar na rua. Prometo te dar um beijo sempre ao acordar e dizer que você está linda, mesmo se estiver despenteada e com os olhos sujos. Prometo deixar você mudar meu visual, simplesmente pra atacar de estilista e me usar como cobaia. Prometo te acompanhar na festa de aniversário da sua amiga, mesmo que me sinta um peixe fora d'água no meio de tanta gente desconhecida. Prometo esperar pacientemente quando você entrar só pra dar uma olhada no sapato da promoção da vitrine e demorar 45 minutos experimentando todos os modelos da loja. Prometo não deixar a tampa do vaso aberta nem a toalha molhada em cima da mesa, e nem os sapatos espalhados pela casa. Prometo reparar quando você cortar as pontinhas do cabelo ou quando fizer as unhas na manicure. Pelo menos vou tentar... Prometo buscar o pão, dar banho no cachorro, abrir a porta do carro pra você sair e segurar sua mão na rua. Prometo te ligar na hora do almoço e mandar mensagem no WhatsApp durante o dia apenas pra dizer que te amo. Prometo acariciar seu cabelo e beijar seu rosto carinhosamente, quando você se deitar sobre meu ombro pra ver a novela. Prometo não reclamar quando sua amiga chata vier te visitar. Prometo não falar mal da sua mãe - não na sua frente. 

Na verdade, esqueça tudo isso. Não vou prometer nada. Tanto porque certas coisas eu sei que não vou conseguir cumprir, mesmo. Vou prometer apenas uma coisa: te amar do jeito que você é, com sua personalidade e sua "bagagem". Cumprindo essa promessa, todo o resto vai acontecer como consequência.

Se você quiser alguém pra ser só seu é só não se esquecer: estarei aqui.

Amor em Tempos de WhatsApp



Sim, não tenho a menor dúvida de que Deus criou a comunicação para melhorar e fortalecer os relacionamentos humanos, nos permitindo manter contato com aqueles que nos fazem bem. O diabo, o satanás, o coisa-ruim, para tentar estragar tudo, criou o WhatsApp.


Ela: mô, pciso falar c vc

Ele: pd flr, amr

Ela: n dá + pra gente continuar juntos

Ele: !!!

Ela: Depois falo mlhr, mas acabou dskupa

Ele: posso saber pq?

Ela: acho que sou eu, slá, mas não te quero mais.

Ele: tá bom, fazer o que

Ela: !!!

Ele: qfoi?

Ela: é só isso que vc tem a dizer?

Ele: pq, o que mais eu deveria dizer?

Ela: Renato, to falando que não te quero mais e vc fala tá bom? vc vai concordar assim, de boa?

Ele: bom, então vamos lá. Letícia, lembra de quando começamos a namorar, há mais ou menos um ano, e eu te disse que eu era diferente da maioria exatamente por não correr atrás? Eu te falei que não faço o tipo que se rasteja pela atenção de ninguém. Até o momento em que você me quiser, estarei aqui pronto para te dedicar todo o meu amor. Quando você não quiser mais, irei entender e agradecer pelo momento em que você me permitiu estar ao seu lado. Bom, esse momento chegou. Você disse que não me quer mais. O que você quer que eu faça? Brigue, discuta, vá até a sua casa com flores e chocolates e te implore um amor que você não tem mais? Quer que eu te peça mais uma chance, até que você fique comigo por pena de mim e de meu sofrimento piegas? Não, não vou fazer isso, Letícia. Não foi o meu amor que acabou, foi o seu. O meu continua intacto. Se você não me quer mais, não tenho o porque implorar que você continue comigo. Sim, vou sofrer muito. Mas vou sofrer calado. Aqui comigo, na minha cama, que é lugar quente. Durante o dia vou vestir a máscara de vida social e seguir em frente. Repito: meu amor continua o mesmo. Caso o seu renasça de novo, estarei aqui. Enquanto isso, seguirei em frente. Tchau!

Ela: contato bloqueado

"O Dia Em Que Conheci a Erica", ou Minha Experiência Com o Tantra

Érica, terapeuta tântrica






São 19:00. Me sinto aliviado por conseguir chegar no horário marcado, mesmo com o trânsito carregado do fim de tarde de Moema, zona sul de São Paulo. Anuncio na recepção o número do apartamento e, depois de alguns minutos, sou autorizado a subir. Ao sair do elevador, não enxergo quase nada no corredor escuro, que leva uns 3 segundos para identificar minha presença e acender as luzes. Saio procurando porta por porta, mais pelo constrangimento de encontrar alguém no corredor e imaginar que aquela pessoa iria saber o que eu estava fazendo ali. Encontro a porta certa e toco a campainha. Ouço passos dentro do apartamento. Quando a porta é aberta, encontro Érica Aguiar, modelo e terapeuta de 22 anos que naquela próxima uma hora e meia será quem irá me conduzir em minha primeira experiencia com o Tantra. 

Para entendimento do que vou descrever a seguir, é importante saber de fato o que é o Tantra, ou a massagem tântrica, até pra desfazer alguns tabus que ainda o cercam. Sim, o Tantra está totalmente relacionado com sexo. Mas muito mais do que o contexto sexual, o Tantra envolve um conjunto de ensinamentos orientais que tem, a grosso modo, o conceito de liberdade individual como foco. O indivíduo é livre para ser o que quiser ser, da forma como se sentir melhor, em qualquer área da sua vida, inclusive a sexual, e o Tantra é um caminho que conduz a essa liberdade interior. No contexto sexual, o Tantra prega a união das energias sexuais como o ponto alto da liberdade humana, momento em que a pessoa está completamente desconectada do mundo externo e concentrada apenas em sua própria humanidade, sua interioridade. O momento do orgasmo, assim, passa a ser algo quase sagrado, já que é o ápice do encontro do homem consigo mesmo, com seus desejos mais profundos, e a relação sexual deixa de ser algo apenas erótico para ser o maior momento de interação humana, o ponto em que ambos deixam de serem dois individuais para serem um único ser conectados pela energia orgástica.

OK, o discurso é bonito, mas não o suficiente para aliviar meu nervosismo, que àquela altura era visível.

Nervosismo, inclusive, que se manifestava em vários aspectos: a expectativa de não fazer ideia do que iria acontecer de fato nos minutos seguintes, a confusão em minha cabeça sobre o que era, na prática o Tantra. Vou transar? Não vai ter sexo? Ela é uma garota de programa? Massagista? Sei lá o que é isso aqui. Vim porque a proposta era interessante, mas não sei o que de fato me espera. Mas outra coisa me deixou também bastante ansioso.

A beleza da terapeuta.

A Érica não é só bonita. É incrivelmente linda! Talvez tenha menos de 1,60 e, como estava de chinelos, imaginei que ela não tinha o menor problema com o próprio tamanho. Os cabelos pretos lisos e longos, o sorriso farto que exibem dentes brancos como a neve e as curvas generosas. Ah, as curvas do corpo dessa menina. Uma perfeita harmonia que mais parece o trabalho final do plano de um Grande Arquiteto. Os seios fartos e a bunda grande e empinada dela parecem desenhados, totalmente perceptíveis no conjuntinho branco parecido com um pijama curtíssimo e transparente, que não escondem nada da lingerie rosa. Provavelmente ela seria tema de uma música de Vinícius de Moraes. Um espetáculo de beleza como se vê pouco por aí. Uma sensualidade que parece exalar pelos poros, e  Resumindo: ela é muito, muito gostosa!

A atração é inevitável!





Saliento que percebi tudo isso quando ainda estava na porta do apartamento, do lado de fora.

Ela me recebe com um beijo no rosto muito próximo à boca. Talvez por já estar acostumada às reações infantis dos homens que atende, com certeza ela percebe meu nervosismo e exibe um sorriso doce ao me oferecer água, que aceito numa tentativa de me acalmar.

Aceitei o copo de água, mas foi uma péssima ideia!

O misto de nervosismo e vontade de agarrar aquela garota me deixaram numa situação quase constrangedora. Eu tremia tanto que não conseguia segurar o copo, que quase caiu da minha mão. Ela ri e puxa assunto, conversando algo aleatório. Na sequência, e de forma muito doce, ela me explica como funciona o Tantra, os conceitos que citei acima, e me oferece uma toalha para tomar um banho antes da sessão. Após o banho, deixo minha roupa no banheiro e saio apenas com a toalha envolta na cintura e entro no quarto onde a sessão vai acontecer.

O quarto é pequeno, quase sem móveis. Apenas uma cama de casal, um guarda-roupa e uma mesa. A luz é baixa e no notebook toca alguma canção indiana que mais parece um mantra. Ela me pede que tire a toalha e me deite com a barriga pra baixo enquanto ela vai se preparar. Olha para trás na curiosidade de descobrir o que ela estava fazendo. Ela já havia tirado o conjuntinho e estava apenas de sutiã e calcinha. Fazia uns movimentos que mais pareciam preces, com as mãos juntas, olhos fechados, cabeça virada para cima. Em seguida ela volta; se senta sobre minhas pernas e me pede para relaxar. 

A sessão vai começar. 

Ela começa com movimentos sobre minhas costas, movimentos leves com a ponta dos dedos que acabam por me fazer cócegas. Os movimentos se repetem várias vezes, subindo e descendo pelas costa, seguidos de sopros que me causam fortes espasmos - na verdade o que sinto são cócegas, muitas cócegas! Me assusto no começo mas ela, de forma muito doce, se aproxima e, quase no meu ouvido, me diz para acalmar e me entregar. Os movimentos leves dão lugar à um toque mais firme. A mão dela é macia, muito macia. Passa as mãos pelas minhas costas e no meu ombro, o que até aquele momento era uma massagem comum como qualquer outra. Gasta uns cinco minutos nesses movimentos.

A coisa começou a mudar depois disso.

Ela então me pede para virar para cima, e após outro ritual parecido com a prece de antes do início, retoma a massagem, com movimentos novamente leves sobre meus ombros, peito e barriga. Desce pelas pernas e sobe novamente até que chega ao lingam, onde ocorre o ponto alto da massagem tântrica. 

Sim, "lingam" é o pênis. 

No começo parece uma simples masturbação, com as mãos dela no meu pênis puxando para cima e para baixo. Sinto tesão. Tenho vontade de beijar a boca dela, porém ela não olha nos meus olhos, olha apenas para o pênis, mas como se estivesse em algum transe. Ela inicia então um mix de movimentos intensos, doces e ao mesmo tempo precisos sobre a próstata e a base do pênis, que vão se intensificando. Nesse ponto sinto uma sensação confusa de desejo sexual e leveza, que vai ficando cada vez mais intensa. E mais intensa. As coisas começam a ficar estranhas para mim. Nunca senti aquela sensação antes. Sinto uma onda de calor tomar conta do meu corpo. A respiração fica mais intensa. O prazer aumenta. Quando me dou conta estou em um estado de quase êxtase, como numa transcendência, de tanto prazer. A sensação é a de que estou tendo um orgasmo, com contrações em todo o corpo, mas sem ejaculação, o tal "orgasmo seco" que o Tantra promete. A vontade é de gritar de prazer, mas consigo me conter. De repente sinto uma vontade intensa de tocar a terapeuta. Mais do que tocar. Sinto vontade de fazer sexo com ela. Uma vontade quase incontrolável. Começo a passar a mão nos braços dela, e ela sorri, correspondendo. Me levanto um pouco e coloco a mão nos seios dela, por cima do sutiã. As mãos descem pelo corpo dela e passo a mão na bunda dela.  Coloco as mãos nas coxas dela e tento levar a mão direita para dentro da calcinha dela. Ela calmamente acaricia meu braço e pede que eu relaxe. Me deito novamente, mas não tinha como relaxar. Eu queria transar com ela. Sinto um desejo descomunal por ela. Tesão. Muito tesão. Mas um desejo diferente do que senti quando a vi na porta. Mais do que o tesão comum de um cara que está na cama com uma mulher bonita. Sinto uma ligação quase espiritual com ela, uma vontade inexplicável de compartilhar com ela toda aquela sensação maravilhosa que estou sentindo ali no momento. É como se ali o sexo fosse algo sagrado, o clímax de um momento de bem estar supremo entre duas pessoas ligadas por uma energia maior. 

Mas não, não houve relação sexual. 

Ela continua fazendo movimentos em meu pênis, e pouco depois tenho um novo orgasmo, mas agora o orgasmo comum. Parece que entrei em transe de tanto prazer. A visão escurece rapidamente. Entro num estado de relaxamento como nunca senti na vida. Sinto sono. Ela se levanta para se limpar. Volta com lenços umedecidos e me limpa calmamente, enquanto conversa algo que nem lembro bem o que, já que estava relaxado de uma forma como nunca havia ficado antes. 

Me levanto para um novo banho. Após, conversamos ainda alguma coisa sobre a vida pessoal dela - vale destacar a simpatia dela que cativa até os mais incrédulos - e logo depois vou embora. A sessão encerra da melhor forma possível. Consegui vivenciar a experiência tântrica em sua plenitude.

Se recomendo? Sim, com certeza. O Tantra é mais do que sexo, é um reencontro consigo mesmo. Muito mais do que uma massagem relaxante, é uma sessão de descobertas. Vale a pena!

O Metrô




17:00. Desliga o computador, aguarda o leve sinal sonoro do Windows avisando que o programa está definitivamente encerrado. Pega sua bolsa, guarda nela o livro que deixou o dia todo em cima da mesa e sai da sala, rumo à registradora eletrônica de ponto, para ali encerrar oficialmente mais um dia de trabalho. Cumprimenta alguns conhecidos que encontra por ali, jogando conversa fora enquanto esperam algo. Passa seu crachá, guarda-o na bolsa e sai dos domínios da empresa, rumo ao elevador que o levaria do 15° andar ao térreo, para a luz do sol. Corredor vazio. Ótimo, não tinha a intenção de conversar. Sua cota de assuntos triviais para quebrar gelo já se encerrara há algumas horas, e tudo o que queria naquele momento era o silêncio libertador do fim do dia, permitido apenas àqueles que sabem que o dia seguinte será religiosamente igual ao anterior, e assim sucessivamente, até que o próximo fim de semana venha com a carta de alforria que dá a falsa sensação de liberdade que a vida pessoal nos faz acreditar termos. 

Entra no elevador, que também está vazio. E vazio permanece até o térreo, de onde sai sem cumprimentar ninguém em direção à porta. Ainda de dentro da recepção pode ver a rua, agitada como sempre. Sai pela porta que o recebe todos os dias pela manhã, e logo de cara esbarra com um universitário que passa distraído ouvindo sua música no fone de ouvido. Educadamente o rapaz pede desculpas e pergunta se o machucou. Apenas agradece e diz para não se preocupar-se, pois estava bem. Queria ter perguntado ao jovem que música ouvia com tanta concentração que o fez desligar-se do mundo externo, mas pensou que o rapaz poderia entender sua pergunta como uma repreensão pelo esbarrão, e deixou como estava. Mas ficou curioso. Queria saber apenas qual era a canção que tinha esse poder de desligar do mundo qualquer pessoa mentalmente ativa, para escuta-la e fazer dela seu hino. 

Segue pela rua, enquanto observa os bares já cheios de pessoas aparentemente alegres, que bebem enquanto conversam coisas sem sentido. Chega à estação de metrô onde, assim como em todos os outros dias, embarcaria sentido seu bairro, comum como qualquer outro. Conhece bem aquele espaço: uma entrada pequena sem qualquer glamour, de arquitetura básica, sem qualquer decoração, com uma porta quadrada simples, escadarias de cimento que levam às bilheterias e, ao fundo, as catracas que dão acesso à plataforma onde tomaria seu vagão normalmente. 

Desce as escadas sem olhar para frente para evitar qualquer contato visual com qualquer pessoa, evitando assim o risco de encontrar conhecidos com quem teria de trocar novos papos furados, o que absolutamente não queria naquele momento. Se dirige à bilheteria e pega a fila, esperando sua vez para comprar o bilhete de volta. Sempre pensava como era estranho o fato de um pedaço de papel que nem sabia dizer de qual tipo seria era seu passaporte a um outro ambiente, aquele a qual realmente as pessoas almejavam quando ali entravam. Sim, pois não deve haver pessoa que entre numa estação de metrô com a única finalidade de passar um tempo ali, observando o movimento. Não em plena consciência, talvez. Todos os que adentram uma estação querem apenas esfregar seus traseiros numa catraca fria de metal e descer à plataforma, para embarcar em qualquer linha de metrô que lhes dê acesso ao seu destino. E era isso que ele queria: chegar ao seu destino. Não tinha porque perder tempo com coisas supérfluas naquele momento. Aliás, perder tempo era uma das coisas que mais evitava fazer. Não que fosse atarefado, mas gostava de parecer ser. Assim parecia ser mais respeitado. Gostava de andar depressa como todos os outros. Não que tivesse pressa, mas assim pareceria importante, como os demais gostavam de parecer serem. 

Perdido em seus pensamentos nem observou quando chegou sua vez de ser atendido por uma bela moça de olhos claros e cabelos negros que o olhava atentamente, esperando que fizesse seu pedido. Sua cabeça pensante se concentrou na jovem, a única que o olhava atentamente há dias. Não pode deixar de observar a sobrancelha volumosa combinando com o cabelo escuro e o sinal preto no canto esquerdo da boca, que contrastava com a pele tao clara. Concentrou-se na boca vermelha e volumosa da jovem, e viu quando seus lábios se moveram e pode ver seus dentes incisivos grandes, maiores que os demais, o que, combinado com a pinta preta no canto da boca, dava à jovem uma aura ao mesmo tempo infantil e maliciosa

"Posso ajudar?", disse friamente a moça, interrompendo completamente sua análise da personalidade física da garota, que agora parecia perder todo o encanto, já que havia sido chamado ao mundo real quando a moça o fez lembrar do motivo pelo qual estava ali: comprar um bilhete de metrô, e nada mais. "Um unitário, por favor", respondeu sem olhar nos olhos da pobre jovem, que recebeu de suas mãos o dinheiro e entregou logo em seguida o bilhete, já olhando para o próximo da fila para não perder tempo. 

Passou pela catraca gelada e desceu as escadas rolantes sentido a plataforma, que já estava lotada de pessoas desconhecidas e comuns, que assim como ele iam a algum lugar. Para onde? Cada um sabia, ou devia saber, onde ia. Cada um ali, com sua vida, sua história, seu passado e planos de futuro devia saber o que queria ali realmente: ir à faculdade, ver os pais, chegar em casa, namorar. Ele iria apenas para casa, para voltar a ser o solitário de sempre e aguardar em frente a TV sua hora de dormir para, no dia seguinte, iniciar tudo novamente. 

Desceu as escadas e posicionou-se onde pode, para ter ao mesmo tempo a visão da vinda do vagão e poder observar os que desciam a escada. Não que esperasse alguém, mas gostava de observar os rostos dos desconhecidos. Disfarçava, claro, desde a vez em que fora abordado por um dos seguranças do metrô, que suspeitou de seus movimentos suspeitos ao pé da escada, olhando um por um como quem procurasse alguém. Continuava a observar as pessoas, mas de canto de olho, como se não olhasse para lado nenhum. Foi assim, observando aquela multidão de caras desconhecidas, que viu o rosto dela. Apertou os olhos para ver de novo. Tentou lembrar se havia bebido, mas não, pois estava voltando do trabalho. Olhou novamente para ter a certeza de não a estar confundindo com outra comum desconhecida. Mas não estava. Realmente era ela quem estava ali. Mas como assim? Por que exatamente naquele lugar e naquele momento? Há quantos anos não a via? Fez as contas rapidamente e chegou a dez anos. Sim, haviam se passado dez anos desde a última vez em que a vira. Ainda tinha nítida a lembrança daquele momento, em que ele sempre julgara ser a última vez em que a veria, quando ela virara as costas e seguira pela rua, se perdendo entre as pessoas após dizer-lhe que seria melhor para ambos se cada um seguisse sua vida. Aquele momento fora um divisor de águas em sua vida. Ao perdê-la de vista na rua, perdera também seu chão, suas colunas, suas paredes. Desde aquele dia sentia-se em solo lunar, flutuando sem saber para onde ir e nem como chegar a qualquer lugar. Ela levara junto consigo a força da gravidade psicológica que mantém nossos pés no chão e nossa mente em foco. Depois de três anos compartilhando momentos bons e ruins, experiências boas e outras desastrosas, momentos constrangedores e outros bastante acolhedores, brigas e sexo, aquela conversa numa calçada encerrara uma parte de sua vida, a mais produtiva, a mais significativa, e sem saber ela o havia empurrado ao um fosso de ostracismo e inércia, a qual ele fazia questão de honrar todos os dias com sua vida oca e sem sentido. 

Ao vê-la ali, descendo as mesmas escadas por onde ele havia acabado de passar, sentiu seus olhos virarem e seu estômago embrulhar. Não necessariamente embrulhar. Só naquele momento entendeu o que a expressão "borboletas no estômago" queria dizer. Não sabia como reagir. Só sabia que não a deixaria vê-lo. Bom, naquela imensidão de pessoas, seria realmente quase impossível que ela o visse ali, até porque provavelmente ele era a última coisa que passava na cabela dela. Com essa certeza em mente sentiu-se mais a vontade para observá-la, e perceber que o tempo não a havia mudado em nada. Seu rosto ainda tinha as formas arredondadas que ele tanto acariciara, e seus cabelos pretos ainda pareciam tão bem cuidados como antes. Estava séria, mas não pode deixar de lembrar de seu sorriso, com dentes brancos e bem alinhados, apesar de pequenos, o que lhe dava um sorriso quase infantil. Será que ela ainda formava covinhas no rosto quando sorria? Seu corpo ainda estava em forma. A camisa branca que usava era pouco para esconder o formato do corpo que ele tanto desejara e possuíra quando estavam juntos. Os seios pareciam ainda do mesmo tamanho, pequenos e firmes, nos quais ele adorava pousar a cabeça para assistir filmes que ele não entendia nas tardes de domingo, enquanto comiam pipoca com gosto forte de manteiga. A calça preta social também deixava em evidência os quadris nos quais ele tantas vezes colocara as mãos para agarrá-la, nessas demonstrações públicas de posse que os casais apaixonados adoram fazer. Ela ainda continuava linda e sexy como fora há dez anos atrás, e se lembrou de quantas vezes sentiu ciúmes ao pensar que aquele corpo maravilhoso, que lhe pertencia, andava sozinho no dia a dia, à mercê de olhares tarados sedentos por sexo fácil. Lembrou de quantas vezes lhe aconselhara a tomar cuidado com as ruas e com o metrô - que ironia! - onde sempre haviam maníacos que se aproveitavam do calor da multidão para praticar suas obscenidades em mulheres indefesas. Lembrou também que ela ria a cada conselho que dirigia à ela, talvez o considerando bobo por pensar que ela fosse uma simples jovem indefesa, e não uma mulher cheia de atitude e que sabia muito bem se defender sozinha, como sempre fora. 

A cada passo ela se aproximava mais da plataforma, e de onde estava, o encontro seria inevitável. Por isso saiu de onde estava e atropelou meio mundo para procurar um lugar de onde ela não pudesse vê-lo. Saiu andando, ora pedindo licença, ora esbarrando e empurrando, e ao mesmo tempo olhava para trás para não perdê-la de vista. Não queria que ela o visse, mas não queria perdê-la mais uma vez entre a multidão. Viu quando ela completou seu percurso na escada rolante e parou, como se procurasse alguém. De onde estava seria facilmente observado, então tratou de continuar andando. Seguiu em frente, mas olhando para trás para não perdê-la de vista. Viu quando ela olhou em sua direção e começou a andar. Pronto, ela me viu, pensou. Desistiu de sumir e parou. Um homem ao seu lado protestou por estar na frente de seu campo de visão para o trilho, de onde veria quando o metrô chegasse, e resolveu voltar um pouco para trás. Criar tumulto ali naquele momento seria a pior forma de se esconder. Ela continuava vindo em sua direção e agora sorria. Ele fez como se não tivesse visto e apenas esperou que ela se aproximasse. Olhou para frente para ajudar no disfarce de homem desatento, e quando olhou novamente para trás viu que ela havia parado um pouco atrás, cumprimentando um rapaz que ele havia acabado de empurrar enquanto fugia dela. Viu quando ela o beijou na boca e se deixou ser abraçada por ele, aconchegando-se em seu peito e voltando seus olhos para o trilho do metrô, assim como todos os outros. É, ela não o havia visto. Sua simpatia e sorriso - com as covinhas de antes - haviam sido dirigidos para o outro homem com o qual ela estava agora, e com quem parecia feliz e confortável. Ele pensou que eram para ele, mas não. Assim como há dez anos atrás, ele novamente era uma pessoa como qualquer outra para ela, apenas mais um em meio a multidão de rostos desconhecidos. 

Seguiu mais à frente, para não correr o risco de embarcar no mesmo vagão que o casal apaixonado que esperava pelo mesmo destino que ele. Sim, o destino era o mesmo, mas os caminhos eram diferentes. Sentiu raiva de si mesmo por pensar que, assim como ha dez anos atrás, as coisas poderiam ter mudado e que pudesse receber novamente alguma atenção dela. Pensou que devia seguir com a própria vida. Iria mostrar a ela que ele também era competente o suficiente para seguir com a própria vida e, se ela havia encontrado outro homem para amar, ele encontraria uma outra mulher. Lembrou-se da atendente da bilheteria. Pensou em subir lá e, numa atitude completamente maluca, pedir-lhe em casamento sem nem saber ao menos o nome da garota. Pensou que poderia faze-la desistir da vida de atendente de bilheteria e levá-la a conhecer um outro mundo. Mas antes de qualquer coisa, queria ter uma outra mulher para passar por perto do casal que ainda estava na plataforma. Esbarraria nela de propósito com sua nova noiva que acabara de conhecer e usaria uma carga extra de conversas triviais, coisas do tipo "que coincidência", "quanto tempo", "nossa, você está tão linda quanto antes", "sim continuo no mesmo emprego", apenas para que ela visse que, se ela tinha seguido em frente, ele também. Mas o metrô enfim veio e jogou por terra todo o seu plano de vingança afetiva contra ela, que sequer sabia que ele estava ali, aliás que talvez sequer pensasse nele naquele momento. 

Entrou no metrô e encostou-se como pode em uma barra de ferro já cheia de marcas de outras mãos que ali já haviam se segurando antes com a certeza de que aquela composição, aqueles vagões e aquela estação eram a prova de seu fracasso como pessoa. Aquele ambiente era a prova de que ele havia parado no tempo e que nem havia percebido que dez anos haviam se passado desde o dia em que seu mundo havia caído. Talvez não fosse a primeira vez que ela tivesse usado aquela estação. Talvez passasse por ali todo dia. Talvez já tivessem se encontrado antes e ele nem a tivesse percebido. Talvez ela já o tenha visto em outras vezes e feito a mesma coisa que ele acabara de fazer. Mas isso não importava mais. Só ali se deu conta de que até aquele momento ainda continuava procurando um motivo para viver, um chão para pisar, um corrimão para segurar. Só ali percebeu que havia se transformado num ser amorfo, sem qualquer perspectiva na vida. 

E por isso decidiu: nunca mais entraria naquela estação de metrô.

Maria




Houve um tempo em que Maria havia desprezado as pessoas que queriam sua amizade.

Em nome de certos princípios morais que ela nem sabia ao certo se valiam a pena ser seguidos, Maria desprezou as pessoas. Preferia viver de acordo com uma certa crença estranha de que todas as pessoas eram inferiores a ela. Sim, Maria era arrogante. Para ela, todos eram seres preguiçosos que queriam apenas as coisas de um jeito fácil, enquanto ela sim dava realmente o devido valor à vida. Ela preferiu não se misturar. Enquanto todos conversavam, Maria reprimia as risadas e condenava toda aquela alegria. "Enquanto vocês conversam e se distraem o mundo está girando, e a vida está passando", dizia ela em tom de reprovação. Aos poucos, as pessoas passaram a se afastar de Maria. Diziam que qualquer pessoa no mundo conseguia ser mais agradável do que ela. E Maria não ligava, pois achava melhor não ter por perto gente que queria apenas "empurrar o mundo com a barriga".

Mas as pessoas se foram. Cada um dos antigos conhecidos tomaram seu rumo na vida. Os rapazes que viviam olhando os seios fartos de Maria se cansaram e foram namorar outras garotas. As amigas que tentavam sempre comentar o que tinham feito na noite anterior com o namorado foram embora. Os amigos foram trabalhar. A vida se foi. E Maria ficou.

Maria criticou tanto a infantilidade de seus amigos que esqueceu que dentro dela havia uma criança. Defendeu tanto o trabalho que se esqueceu que trabalhar é apenas a consequência, não a causa. Defendeu tanto a maturidade que se tornou uma pessoa rígida e fria. Maria queria tanto não perder tempo que não o aproveitou em nada. Defendeu tanto a vida que se esqueceu de viver.

Agora Maria descobriu que rir com amigos não é apenas coisa de gente preguiçosa e desocupada. Descobriu que uma noite com os amigos numa mesa de bar pode ser mais sagrada que qualquer culto religioso. Agora Maria sabe da importância de se viver em comunidade. Mas só agora, que Maria se tornou uma pessoa solitária. Maria sabe na pele o significado da palavra tédio. Sem querer, Maria descobriu o quanto a vida pode ser sem graça quando você não tem pessoas por perto. Descobriu como é ruim você não ter a quem ligar, a quem convidar para ir no cinema, a quem desejar feliz aniversário, a quem parabenizar, a quem contar suas vitórias. Maria descobriu enfim que inferno não é um lugar onde habitam demônios. Inferno é a ausência de pessoas.

Maria descobriu o significado da palavra solidão.

Sobreviver em Tempos de Guerra Interna


Todos nós temos nosso tempo de guerra. Não a guerra propriamente dita, com armas, mortes, prisões, tumulto, mas uma guerra silenciosa, imperceptível aos olhos dos outros, que acontece no maior campo de batalha do mundo: nosso psicológico. Todos nós travamos batalhas internas intensas, sangrentas mas sem sangue, contra nosso maior inimigo: nós mesmos. Ou talvez não. Nosso maior inimigo não somos nós mesmos. Nosso psicológico, sim, é nosso maior inimigo, às vezes mortal. O psiquê, nosso interior, é um campo de batalha que pode ser comparado aos maiores palcos de guerra já vistos na história da humanidade. E arriscaria dizer que nossas guerras internas são ainda mais crueis do que as grandes guerras mundiais, pois se essas chamam a atenção do mundo, que faz de um tudo para encerrá-las, nossas batalhas psicológicas são imperceptíveis aos outros, que nem sempre as entendem quando resolvemos falar o que se passa conosco. Todos nós alternamos na vida momentos de paz e momentos de guerra E nessa gangorra psicológica todos nós temos momentos em que parece que a solidão resolve se instalar de vez em nossa vida e nos acompanhar - olhe o paradoxo! - por onde formos. Tempos em que vemos pessoas nos abandonarem, amigos faltarem, amores sumirem. Tempos em que falta uma companhia para ir a um cinema, sequer. Tempos em que vemos todos terem seus motivos para recusarem qualquer convite nosso, e nos acostumamos tanto a isso que paramos de convidar. Tempos em que a única coisa que lhe resta é você mesmo, sozinho, e esse maldito coração arrasado por uma depressão horrível que insistem em martelar dia e noite avisando que você é um fracassado, inútil, derrotado e um ninguém, imprestável que não serve para nada à sociedade e que não faria a menor falta se sumisse. Aliás, são em tempos assim que sumir se torna uma opção bastante plausível. Mas sumir definitivamente. Encerrar de vez seu campo de batalha e embarcar rumo ao desconhecido no pós-vida. Vai que o Paraíso com ruas de ouro e cristal do Apocalipse realmente existe, pelo menos as coisas seriam um pouco melhores! Tempos em que tudo parece seguir caminho contrário ao seu, em que vê seus sonhos irem ralo abaixo, em que nada dá certo na vida, em que parece correr em cima de uma esteira: por mais que corra e canse, não sai do lugar. 

E o que fazer em momentos assim? Como encerrar essa guerra? Como chegar ao tratado de paz que encerra com a batalha mais longa da história da humanidade, a que se passa dentro de nós mesmos?

Não sei. Se soubesse, já teria encerrado a minha faz tempo! Mas sei o que fazer para sobreviver em tempos de guerra. Quando vivemos em guerra conosco, é imprescindível desenvolver recursos para se manter íntegro, com o coração inteiro, mesmo em meio ao turbilhão de pensamentos que rodeiam nossa cabeça todo dia. Todo o cuidado é pouco para que não "percamos a alma". 

Antes de tudo, entenda que nada nesse mundo é definitivo. Nem sua guerra interna é. Sim, por mais que não pareça, ela irá acabar em algum momento. Nossa vida é feita de fases, e uma fase ruim sempre acaba. Em algum momento você enfrentará uma fase boa, em que tudo dá certo, em que você tem alguém para compartilhar as coisas boas que você vive. Se você ainda não está nessa fase, tenha certeza de que ela virá em algum momento. 

Mesmo em tempos de guerra, há dias em que você se sente bem. Há um, dois dias na semana em que você acorda bem, feliz consigo mesmo e disposto a ser o melhor do mundo. Agarre-se nesses dias. Foque no dia em que você está bem, feliz, rindo com todos e feliz com a vida que tem. Quando o dia ruim vier, você terá uma lembrança mais forte do dia anterior bom e terá mais facilidade em focar num futuro mais tranquilo. 

Entenda que você não é o que seu psicológico lhe diz ser quando está mal. Nossa tendência é nos desvalorizarmos e nos sentirmos um lixo quando estamos nos nossos tempos de guerra. Mas saiba que você não é nem tão bom como acha ser quando está bem, e nem tão mau quanto pensa ser nos dias maus. Você é literalmente um "meio termo". Mas nos dias maus foque no seu lado bom. Lembre que há pessoas que, por mais que não pareça, gostam de falar com você e sentem sua falta. Mais: percebem quando você não está legal e se preocupam com isso. 

Dê espaço para as pessoas participarem da sua vida. Sim, há pessoas interessadas em conhecer melhor o que se passa com você, ou pelo menos conversar sobre sua rotina. Fale de você, o que você gosta, sua preferência musical, de que tipo de livros gosta, enfim, essas trivialidades poderosas para engatar uma conversa que pode se estender por horas. 

Afaste a amargura. Quem nunca se sentiu o injustiçado do mundo? Quem aí nunca pensou que o mundo conspira contra você e que todas as outras pessoas não passam de aproveitadores que usam de barganhas com a vida para conseguirem o que querem, enquanto você fica para trás por não se dobrar a tudo isso? Sim, isso é amargura. E amargura é mato, meu amigo. Cresce sem você ver e só percebe quando está alto, no meio do seu caminho impedindo sua passagem. Afaste pensamentos amargurados. As pessoas não são todas iguais e nem sempre quem se aproxima de você quer se aproveitar de algo e depois ir embora. Existem sim pessoas sinceras, por mais difícil que seja encontrá-las. 

Enfim, a única coisa confortante numa guerra é saber que num momento ela acaba, seja a Guerra Fria, a Segunda Guerra Mundial (bom, a das duas Coreias ainda não acabou, mas... Deixa pra lá!) ou a guerra que você trava o dia inteiro dentro de você. Tente se manter firme. Ouça músicas que gosta. Procure uma terapia com uma psicóloga de sua confiança e se abra.

E viva bem. 

Pensar Fora da Caixa



Cada um de nós vivemos em um mundo, um universo pessoal, um "infinito particular", como bem diz a Marisa Monte, e de quem pego emprestado essa expressão sempre que abordo esse tema. Para alguns, seu infinito particular são os pais, colegas de escola, vizinhos e amigos de infância. Para outros pode ser o trabalho, ou apenas a esposa, ou o marido e os filhos, ou o grupo religioso, ou qualquer outra coisa ou pessoa com a qual se tenha afinidade, se conviva diariamente e se tenha laços fortes. Todos nós temos nosso mundo, nossa caixa, nosso habitat onde crescemos, fincamos raízes e onde vivemos, e onde muitas vezes construímos nosso futuro.

Por melhor que seja a vida dentro desse mundo, algumas pessoas sabem que pensar fora da caixa pode ser algo muito gratificante. Ver por cima dos muros, conhecer gente além das nossas fronteiras internas, experimentar culturas diferentes, situações nunca antes pensadas. Essas são coisas que fazem bem, pois nos fazem enxergar que existem mundos diferentes dos nossos, e que às vezes há coisas boas em outras formas de ver a vida. Como muito bem disse a Pitty em sua musica Anacrônico, existe um "outro ciclo em diferentes fases vivendo de outra forma, com outros interesses, outras ambições mais fortes". Tanto porque ninguém é a mesma pessoa desde sempre. Todos nós mudamos nossa forma de pensar conforme o passar dos anos. Lembre quem era você há dez anos atrás. Muita coisa mudou em sua cabeça, não? Sabe por que? O mundo mudou nesse tempo. As informações mudaram, o padrão cultural mudou, as pessoas mudaram. Ou seja, conhecer outras formas de ver a vida é algo muito positivo para todos nós. Uma experiência que ninguém poderia deixar de tentar viver.

Mas nem sempre as pessoas pensam assim. Talvez pelo medo do desconhecido, pela insegurança de não saber o que vai encontrar na busca pelo diferente, essas pessoas se fecham em seus mundos e preferem evitar contato próximo com tudo que venha de fora. São pessoas que consideram bastante cômoda e feliz a vida dentro do próprio mundo em que vivem e preferem não buscar nada que não faça parte de seu infinito particular. Essas pessoas se bastam dentro de seus mundos e não veem qualquer necessidade de contato externo. Sendo assim essas pessoas irão repelir qualquer tentativa externa de aproximação, seja pelo desprezo, seja pela indiferença ou pela rejeição direta. Essas são pessoas que são sim, felizes e que tem sim grande chance de dar certo na vida e obter sucesso. Mas perdem por deixar de conhecer o diferente.

Sim, é importante manter laços, criar vínculos. Lógico que sim. Eu seria um louco e iria contra anos de estudos sociais se dissesse algo diferente disso. Todos nos precisamos de um chão firme, uma terra onde possamos retornar, pessoas confiáveis com quem podemos contar em todo o tempo. Todos nós precisamos do nosso "infinito particular". Ele é saudável e necessário. Mas é um grande erro se fechar nesse mundo. Uma das maiores virtudes humanas é saber que há vida inteligente fora da nossa caixa pessoal, e que muitas vezes, pelo medo do desconhecido, perder grandes oportunidades. Oportunidades para a vida toda.

Antes de se fechar em seu próprio mundo e se anunciar ou sinalizar como autossuficiente, reflita sobre o que você pode perder se deixar de conhecer o mundo externo. Não é abandonar suas raízes e desfazer seu mundo em nome de uma aventura desconhecida. É dar espaço para que outras pessoas e formas de pensar façam parte de seu mundo. Não é sair da caixa, é aumentar o tamanho dela. Como o próprio nome diz, seu "infinito" particular tem sim espaço pra muitas novas experiências.

É só prestar um pouco mais de atenção ao que há em volta. Ou não tão em volta assim, mas em algo ou alguém que tenta a todo custo se aproximar e você, talvez pelo medo do desconhecido, esteja afastando.