O Verdadeiro Reynaldo Gianecchini


O texto abaixo é uma paródia de “O Verdadeiro George Clooney”, trecho do livro Em Algum Lugar do Paraíso, de Luiz Fernando Veríssimo. Sei lá, é bom avisar, né. Vai que alguém leva a sério… 


Longe de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do Reynaldo Gianecchini o que está em jogo é a autoestima do homem brasileiro, os demais que não são Reynaldo Gianechinni. 

Qualquer qualidade que qualquer homem tenha, física ou intelectual, cai por terra quando comparado com Reynaldo Gianechinni. As mulheres não escondem sua adoração por Reynaldo Gianechinni. O próprio Reynaldo Gianechinni não faz nada para diminuir sua simpatia e dar espaço aos demais de sua espécie. Ele continua sendo cada vez mais Reynaldo Gianechinni. 

Quando anunciou-se que ele estava com câncer, lá no mais secreto do interior masculino houve uma expectativa pela sua morte, assim seria um homem perfeito a menos na disputa pela atenção das mulheres. E ele morreu? Nada, sarou e ainda agregou à si a imagem de homem batalhador, que não desiste da vida. Porra, Gianechinni, assim fica difícil. Reynaldo Gianechinni beira à perfeição. 

Como combater um concorrente desses? Só me resta a calúnia. 

Corre pela rádio-peão da Globo que ele tem mau hálito. Esse seria, inclusive, o motivo do fim do relacionamento dele com a Marília Gabriela, que dizia aos amigos que a vida era curta demais para se gastar tanto tempo comprando balinhas de hortelã. Atrizes que tem de encenar beijos com ele pedem adicional de insalubridade. 

Solteiro, rico e mora sozinho, ou seja, gay. Fala-se, inclusive, num amante argentino de 2,02m, a quem ele chama secretamente de “meu hombre” por telefone nos intervalos entre as gravações. 

Só toma banho aos sábados, o que resulta num chulé insuportável, atestado pelos colegas de cena que dizem ter dificuldade contracenar em qualquer situação em que ele não esteja calçado. Sem falar no cecê acumulado de dias sem ver a cor da água, ao que ele se justifica dizendo estar “colaborando com o planeta”, e diz ser um homem de “hábitos europeus”. 

E como é burro! Uma vez, quando questionado sobre qual seria o líder religioso mais influente do mundo, ele respondeu de pronto: Papa Mahatma Ghandi XVI. Sem contar que ele acha que “Islã” é um país. 

Não sabe usar internet e pensa que Whats App é algum site de celebridades. 

Além de tudo, tem seborreia e é petista.

A Garota no Trem - Paula Hawkins | #Livros






(Atenção: o texto a seguir contém spoilers!)

Rachel é uma profissional de Relações Públicas que coleciona fracassos na vida: perde o casamento e ainda é obrigada a ver Anna, a nova mulher do ex-marido Tom morar na casa que um dia foi sua; se afunda cada vez mais em porres de gim-tônica e vinho de supermercado, o que a leva a perder também o emprego; divide com uma amiga um pequeno apartamento na pequena Ashbury, cidade vizinha a Londres, mas que logo se torna um peso, já que falta o dinheiro do aluguel. Some a tudo isso uma depressão em estágio avançado que mina qualquer força que ainda reste. A única distração de Rachel no momento é tomar todos os dias o trem para Londres e fantasiar histórias com as casas de beira dos trilhos que vê pela janela do trem no caminho. Não todas, na verdade, mas uma casa específica: a casa número 15 e seu casal de jovens moradores, a quem ela resolve chamar de Jess e Janson, mas que depois descobre se chamarem Megan e Scott. Jess e Janson tem, na história fantasiada na cabeça de Rachel, o casamento perfeito: se amam, se protegem e confiam um no outro. Mas, com o sumiço de Megan, Rachel acaba se envolvendo de forma inesperada com a vida do casal e descobre que há muito mais coisas além do que suas histórias inventadas pensavam existir; e o que parecia ser algo distante de repente vira parte da vida de Rachel, o que a leva a entrar num estado de confusão entre realidade e sua imaginação, tudo em meio aos porres frequentes e seus lapsos de memória, que a fazem entrar em situações cada vez mais constrangedoras e perigosas. 

A Garota no Trem é o principal livro de Paula Hawkins, jornalista que trocou o Zimbábue por Londres aos 17 anos e que sempre teve curiosidade em saber o que acontecia nas casas à beira dos trilhos dos trens de Londres. Paula, que escreveu A Garota no Trem como sua última tentativa de emplacar uma história de sucesso, viu sua história tomar o lugar de nomes como O Símbolo Perdido na lista dos mais lidos da Europa, além de virar filme da Dreamworks, ainda a estrear. 

Por prometer ser uma história de suspense elaborada e eletrizante, confesso que esperava um pouco mais do livro. Muito mais do que um romance policial, a história acaba se revelando uma narrativa cheia de elementos psicológicos das personagens, principalmente de Rachel, uma jovem depressiva e problemática que insiste em fazer parte de algo, mesmo que para isso tenha de cometer burrices desnecessárias ("você não pode evitar ser quem é, mas pode evitar fazer o que quer fazer"); Rachel se menospreza o tempo todo diante das pessoas com quem convive, e faz muito pouco esforço para se reinventar, característica dos depressivos. Além disso, há a Anna insegura consigo mesma que depende do amor de um homem para se afirmar e Megan, a jovem cheia de problemas internos que desconta todos seus demônios em relacionamentos superficiais. Isso sem falar em Scott, o controlador que quer ter a vida do outro em suas mãos o tempo todo. 

Além disso, o livro é muito, mas muito pobre em descrições de lugares e pessoas - curioso que sempre reclamo das descrições cansativas em romances policiais, mas quando elas não existem fazem falta. Quase não dá pra mentalizar as personagens, apesar do esforço repetitivo da autora em mostrar uma Rachel feia e malcuidada, ante uma Anna bonita e sedutora, e uma Megan jovem e sexy. O enredo se mostra meio óbvio, principalmente por causa de umas pontas lançadas no decorrer do livro durante as narrações de Megan. Bom, pelo menos pra quem tem o hábito de ler romances policiais, a história soa meio clichê; parece ter sido escrita já com a finalidade de virar filme.

Mas nenhuma dessas críticas tiram o brilho de A Garota no Trem, uma história que conquistou milhares de leitores em 42 países não à toa; prende e te faz querer saber logo o desfecho da investigação. Li em 3 dias, em pé no ônibus, andando na rua, em casa - odeio ler em casa; faltei na academia e peguei ônibus com trajeto mais longo pra voltar pra casa, tudo pra ter mais tempo para saber qual seria a próxima burrada de Rachel. 

Não espere em A Garota no Trem uma história complexa, muito bem elaborada, cheia de reviravoltas nem detalhes, mas recomendo a leitura. É uma ótima indicação inclusive para quem está se aventurando agora nos romances policiais e se perde um pouco em tramas mais profundas.

Eu Não Sou Gabriela #Aniversário





Sábado passado estava no metrô quando entrou um rapaz conversando no celular. Bom, "no celular" é modo de falar, pois ele falava tão alto que o vagão inteiro participou da conversa dele. Entre muitas reclamações numa briga tensa com a ex-mulher pelo direito de ver o filho de 5 anos, ele falava em alto e bom: "eu nasci desse jeito, você me conheceu assim e aceitou porque quis. Eu vou morrer assim, sou grosso mesmo, sou estúpido mesmo, sou teimoso mesmo e não vou mudar nunca, quem não gostar de mim desse jeito que vá embora e me deixe em paz".

Como deve ser horrível a vida de quem pensa assim...

Ano passado, no meu aniversário de 30 anos, em meio a uma crise existencial sem precedentes, escrevi que gosto de viver e que quero viver ainda muito tempo, se possível não apenas trinta, mas trinta vezes três. Hoje, completando 31, continuo com a mesma vontade de viver. Estou descobrindo só agora coisas que os outros descobriram há muito tempo atrás, e quero viver essas coisas boas que a vida me oferece. Mas a consciência que tenho esse ano é a de que, para viver com qualidade de vida, preciso estar aberto à mudanças. 

Quero não apenas viver, mas estar atento à minha vida. Perceber as coisas que me acontecem e que acontecem à minha volta e filtrar o que posso absorver e o que devo rejeitar. Perceber o que devo reforçar e o que devo mudar. Há sim coisas em mim que precisam de mudança urgente, hábitos que tenho e preciso abandonar, e coisas que não faço e preciso começar a fazer. Quero estar aberto ao novo em minha vida. Abraçar pessoas que, com a cabeça de antes, eu não abraçaria. Fazer coisas que eu não faria. Ser mais leve. Encarar as coisas com menos seriedade.  

Eu não sou Gabriela e não vou morrer da forma como nasci. Afinal, se fosse pra encerrar a vida da mesma forma como ela começou, que graça teria? O legal da vida são as mudanças. Você se comparar com anos atrás e perceber que muita coisa além da idade mudou; perceber que mudaram "hábitos, lugares, inclusive as pessoas ao redor". O legal de sentir o tempo passar é que frases de efeito como "a vida passa depressa" deixam de ser apenas frases bonitinhas para ser uma constatação. O tempo está passando. Se eu não me atualizar e correr junto, vou apenas assistir a vida passar e ficar para trás. E isso é tudo o que eu não quero.

Preciso sim, me mexer. Me reinventar, me reposicionar. Continuar atualizado. Estar alerta e trazer para mim o que é bom. Se precisar mudar, mudarei. Só não quero ficar para trás na vida. Trinta e um anos denunciam que o tempo não para, mas mostram também que ainda é tempo de pegar o trem, mesmo já em movimento.

Quero mudar para estar apto a aproveitar tudo de bom que a vida oferecer, pois a vida não é um bem renovável. Ela se gasta e não volta mais. Cada tempo perdido é realmente perdido. Como diz José Mujica no vídeo abaixo, que guardo como reflexão para esse aniversário, não se pode comprar vida.

E vamos em frente!

Crianças, carrapatos e a cultura machista | Precisamos Falar #1








Wes Talaveira


Há duas semanas a equipe do blog vem trabalhando em uma nova série de posts que seria lançada em junho, a série Precisamos Falar, para debater temas como aborto, ideologia de gênero, machismo, influência da religião e outros. Com o acontecimento trágico da semana passada, acabamos por antecipar a série, publicando o texto que segue abaixo:


***


Muito se tem falado por esses dias sobre a “cultura do estupro”, depois que fomos expostos a mais um caso lamentável de estupro coletivo, dessa vez contra uma garota de 16 anos no Rio de Janeiro. Um movimento bonito tem tomado conta da internet para denunciar essa cultura que reduz a mulher a um simples objeto sexual que serve apenas para ser usado pelo ser masculino para diversão. 

Mas o fato é que o problema é um pouco mais profundo do que isso. A cultura do estupro é, na verdade, a ponta de um iceberg grande, pesado e perigoso que vem fazendo a cada dia mais vítimas pelo mundo afora: o machismo. Sim, o machismo é um monstro de várias cabeças que está presente em todos os lugares. Nas ruas, nas famílias, nas religiões, na política, em todos os lados vemos comportamentos machistas, ora condenáveis, ora aceitos. 

Sou da opinião de que ninguém nasce machista. Aprendemos o machismo ao longo da infância, no meio em que vivemos, na escola, ia igreja ou com nossos pais. Sim, nossos pais – inclua aí pai e mãe – nos ensinam a sermos machistas, e após aprendido é necessária uma boa dose de boa vontade e humildade para reconhecer esse ranço no nosso comportamento e retirar isso. Comparo identificar o machismo a retirar carrapatos de um cachorro que encontramos na rua: são necessários muito tempo e paciência pra identificar, um a um, os pontos machistas em lugares por vezes imperceptíveis.  

Mas onde está esse tal machismo no nosso dia a dia que as vezes nem percebemos?

Quando o pai ensina que existem “brinquedos de meninos”, sempre brinquedos ligados à inteligência e perspicácia, e “brinquedos de menina”, sempre ligados à casa e a família, estamos incutindo o pensamento machista em nossos filhos. 

Quando ensinamos ao menino que “homem não chora”, e “chorar é coisa de mulherzinha”, estamos ensinando o machismo aos nossos filhos. 

Quando ensinamos apenas a menina a ajudar nas tarefas da casa, como lavar, passar e limpar, estamos ensinando o machismo aos dois. 

Quando dizemos que “rosa é cor de menina” e cores escuras e neutras são cores mais adequadas aos meninos, estamos ensinando nossos filhos a serem machistas. 

Quando você matricula sua filha no ballet e seu filho no judô e acha impensável que um faça a atividade do outro, você está ensinando o machismo ao seus filhos. 

Quando você ensina sua filha a admirar as princesas da Disney e seu filho a gostar de guerreiros de artes marciais, você está ensinando machismo aos seus filhos. 

Quando, em vez de ensinar seu filho a ser educado e cordial com todos, você ensina seu filho a ser cavalheiro porque “mulheres são fracas e precisam do apoio de nós homens fortes”, você está ensinando seu filho a praticar o machismo. 

Quando você condena seu filho que quer deixar os cabelos longos por ser “cabelo de mulher” ou condena sua filha que quer cortar os cabelos porque vai ficar “parecendo homem”, você está praticando o machismo.

Quando você leva seu filho a um puteiro para que a primeira vez dele seja com alguém “que sabe das coisas”, você está ensinando o machismo ao seu filho. 

Quando você ensina a sua filha a se vestir de modo “comportado”, sem chamar a atenção, para “se preservar” porque “homem é tudo igual, só quer se aproveitar de você”, você está ensinando sua filha a aceitar o machismo. 

Quando você ensina ao seu filho que para chegar em uma mulher ele deve ser “incisivo” – ou seja, puxá-la pelo braço sem lhe dar muito tempo para pensar, você está ensinando seu filho a praticar o machismo. 

Quando você diz ao seu filho que há mulheres para casar e mulheres para curtir, e que as segundas não merecem o mesmo respeito das primeiras, você está ensinando seu filho a ser machista.

Quando você ensina a sua filha a sonhar com um casamento e com filhos, mas ensina seu filho a trabalhar e conquistar o próprio dinheiro, você está plantando o machismo.

Viu como o machismo está mais presente em nossa vida do que pensamos? 

Poderia citar aqui uma lista infinita de exemplos de como o machismo está presente na forma como nos comportamos, nos relacionamos e como vivemos, mas a intenção é apenas lançar a semente para que você mesmo faça esse trabalho no seu dia a dia. 

O machismo não faz mal apenas as mulheres. Os homens que não são gays mas que não se enquadram no “padrão masculino de comportamento” também sofrem com essa cultura machista que ensina que qualquer comportamento diferente do socialmente aceito é “coisa de mulherzinha”. Como se existissem “coisas de mulherzinha” e “coisas de homenzinho”. 

Observe sua rotina. Veja a forma como você se comporta com as pessoas com quem convive e identifique o machismo. E o principal: mude esse comportamento. 

A cultura do estupro só vai deixar de existir se cortarmos o mal pela raiz. E essa raiz tem nome: se chama machismo.


***


Wes Talaveira é publicitário, social media e mora em SP 

Deus "ama" os gays? | Crônicas #36








Por Weslley Talaveira

Houve uma época em que o deus cristão não gostava de mulheres. Exceto a Virgem Maria, elas eram seres inferiores que não mereciam atenção, criadas por um deus masculino (de preferência europeu de olhos claros e pele branca) para serem meros recipiente de fetos e objeto para satisfação sexual dos homens, sua criação preferida. Mulheres eram o "sexo frágil" que para nada serviam sem a companhia de um homem. Daí a cobrança da sociedade para que todas as mulheres fossem casadas: mulheres são inúteis se não tiverem um homem à sua frente. Mulheres não podiam ocupar cargos importantes na sociedade nem ter qualquer destaque. Nem votar podiam! Aí inventaram a tal da democracia, umas mulheres não sei onde queimaram uns sutiãs, outras colocaram fogo num galpão em algum lugar no mundo e os homens enfim reconheceram que mulheres devem ter os mesmos direitos dos homens. Diante dessa mudança na sociedade o deus cristão foi obrigado a concordar e passou a amar também as mulheres. 


Num outro momento da história o deus cristão não gostava de negros. Eles deviam ser usados apenas para servir como escravos aos brancos, sua criação preferida. Negros eram criaturas amaldiçoadas pelo deus cristão desde Caim. Isso explicava a miséria da África: punição divina a uma raça inferior. Essa foi a crença que apoiou o apartheid nos EUA, África do Sul e outros países. Além do mais as religiões de "magia negra" foram criadas pelos negros. Isso só piorava a situação deles diante do deus cristão, que já não gostava nem um pouco da cor de pele escura. Aí os negros resolveram protestar contra sua servidão, um tal Martin Luther King fez um discurso numa praça nos EUA, aquele senhor simpático chamado Nelson Mandela lutou até o fim pelos direitos das pessoas de pele negra igual a sua, uma costureira birrenta chamada Sara Rosa Parker resolveu questionar o apartheid americano e os brancos acabaram por aceitar que a cor da pele não importa. Aí o deus cristão foi obrigado a gostar de negros. Hoje em dia tem "servos" negros, pastores negros, bispos negros e veja só: os EUA, a nação mais poderosa do mundo e, segundo os cristãos, a nação preferida pelo seu deus depois de Israel, é governado por um negro.

Atualmente o deus cristão ainda não gosta de homossexuais. Para o deus cristão a homossexualidade é algo impensável e que deve ser combatido com violência até, se for necessário. Para isso ele levanta pastores homofóbicos e intransigentes, defensores da "família tradicional" e grupos fanáticos, tudo com o objetivo de repelir e converter a força esses homossexuais. Para combater essa prática horrível ele usa até mesmo os negros e mulheres que outrora ele também odiava. Mas isso deve ser passageiro. A sociedade vem mudando. Aos poucos, pessoas em toda parte vem se conscientizando de que a orientação sexual, assim como a cor e o sexo, não são determinantes da personalidade de ninguém. E assim como o deus cristão passou a gostar de mulheres e negros, é provável que daqui a uns anos ele passe a gostar de gays e lésbicas, também.

Viu como é fácil manipular Deus? Os fanáticos religiosos creem numa coisa, aí a sociedade muda a forma de pensar e eles são obrigados a mudar o deus em quem acreditavam, isso porque acham que Deus é da forma como eles o veem. Criam para si uma imagem divina de acordo com sua conveniência e a pregam por aí como sendo "o único e verdadeiro deus".

Essas pessoas precisam entender uma coisa: a liberdade religiosa está aí para que eles possam crer no que quiserem. Se querem crer que seu deus não ama gays, sejam livres para isso. Mas crer é uma coisa. Querer impor sua crença à toda a sociedade é outra. Façam novas igrejas que pregam sua mensagem. Preguem. Mas não imponham sua crença. Ninguém é obrigado a crer no deus que você crê.

Creia. E dê aos outros a liberdade de crerem em coisas diferentes do que sua religião prega. 

#Opinião: Quem elegeu Michel Temer? Você!








Por Weslley Talaveira


E ele tanto sonhou com esse dia, tanto trabalhou, tanto fez reuniões, tanto prometeu, tanto negociou, tanto treinou em áudios que vazaram sem querer que conseguiu. Michel Temer, o "Mi da Má", segundo a Revista Veja, deixou de ser um vice decorativo para se tornar o novo velho Presidente da República do Brasil. 

Durante o processo de Impeachment ouvimos todos os dias a ex-ainda-atual-presidente(a) Dilma Roussef e seus militantes-ecos (além dos clássicos "não-sou-petista-mas...") nas redes sociais alardearem aos quatro ventos que, entre outras bobagens, Michel Temer queria ser presidente sem receber nenhum voto. Espalhavam o discurso vazio, mas eficiente, de que Dilma havia sido eleita pelo voto popular com mais de 54 milhões de votos e queriam tirá-la para colocar no lugar alguém que não foi eleito. Inclusive o ex-presidente Lula (ele ainda tem alguma relevância? Não sei...) chegou a gritar em seus discursos que, se Michel Temer queria ser presidente, que disputasse eleições. 

Mas aí que tá. Michel Temer disputou eleições sim. Em 2010 e 2014 ele foi eleito legitimamente pelo voto popular, pela vontade soberana do povo que, num ato de belíssima maturidade e democracia, o escolheu como vice-presidente, derrotando em segundo turno os então candidatos tucanos Índio da Costa (vice de Serra) e Aloysio Nunes (vice de Aécio). 

Quem elegeu Michel Temer? Você que votou na Dilma. 

Só pra refrescar a memória
dos eleitores da Dilma
"Ah, mas eu votei na Dilma, não no Temer". Pois é, queridinha, o Temer estava na pacote que você comprou sem abrir. Michel Temer é tipo aquele cunhado ogro pentelho que você ganha de brinde ao se casar com aquela menina inteligente, engraçada e linda por quem você se apaixonou na faculdade. 

E não, Michel Temer não foi escolhido vice só pra enfeitar a propaganda. Seu partido, o ninho de abelhas intitulado pelos especialistas como PMDB,  é o maior e mais influente partido brasileiro. Apesar de mostrar força no Congresso Nacional, como ficou muito claro no processo de impeachment, a menina dos olhos peemedebistas são os municípios. O PMDB conseguiu eleger em 2012 nada menos que invejáveis 1024 prefeitos, quase o dobro dos prefeitos petistas. Ter uma base de apoio dessas nas cidades é garantia de vitória para qualquer um. Foi esse apoio que levou o PT a entregar o cargo de vice ao partido. Sendo o partido o maior do Brasil, óbvio que esse cargo seria entregue ao peemedebista mais forte do partido, o único com o poder sobrenatural de conseguir fazer o PMDB falar a mesma língua. Ele mesmo, nosso querido Michel. 

Lembro que em 2010, quando a Dilma era apenas a dona da bunda que iria ocupar a cadeira da presidência enquanto Lula planejava manter seu governo paralelo, comentei que dar todo esse espaço ao PMDB  - e principalmente escolher Michel Temer como vice - era o maior entre os erros que o PT poderia cometer, e que seria fatal. Acho que vou virar feiticeiro...

Um dos grandes problemas do eleitor brasileiro é nunca prestar atenção no vice. Estamos acostumados a nos informar sobre o candidato principal, ver o que ele propõe, e nunca observar o vice. Vice no Brasil é vaca de presépio: todo mundo sabe que está lá, mas ninguém dá a menor importância. Quer a prova? Responda sem pensar e sem consultar o Google: quem é o vice-prefeito da sua cidade?

Num país de democracia instável como o Brasil, onde nem sempre um eleito cumpre o mandato inteiro - seja para concorrer a outro cargo (alguém viu o Serra por aí?), seja por denúncias de corrupção - conhecer e observar o vice é de suma importância. Na história do Brasil os vices tiveram importância enorme, apesar da competência nem sempre estar presente. Basta lembrar que foi a fraqueza política de um vice após assumir o governo que deu origem ao Golpe Militar de 1964. Após a redemocratização em 1985, o vice já foi chamado a assumir o cargo três vezes - Sarney assumiu no lugar de Tancredo, Itamar no lugar do Collor e agora o Temer no lugar da Dilma. O vice é sim eleito democraticamente e seu mandato é tão legítimo quanto o do candidato principal. Temer é tão legítimo quanto foram Sarney e Itamar. 

Enfim, dizer que Michel Temer "não recebeu nenhum voto" é discurso de quem se arrependeu do vice que escolheu e agora busca um discurso capaz de neutralizar a burrada impensada no momento da aliança eleitoral. 

Temer é um monstro, que foi devidamente alimentado pelos petistas, políticos e eleitores. Temer é cria de vocês. Agora o aguentem! 

Freakpedia #16: Entrevista da presidente Dilma à Ellen De Generes




Não, a entrevista não aconteceu. 

Mas se acontecesse, seria algo parecido com isso:


***


Ellen De Generes: Vamos receber agora a presidente brasileira Dilma Roussef.

(Entra Dilma). 

Ellen: olá, presidente. Seja bem vinda à América. 

Dilma: Olá, Ellen. Olá aos americanos, também. 

Ellen: presidente, a senhora pediu para falar com a imprensa americana, e disse que há algo grave para denunciar. O que é?

Dilma: Olha, no que se refere a questão da situação política do Brasil atual, eu gostaria de denunciar um golpe que está em curso no Brasil 

Ellen: e como é esse golpe? 

Dilma: veja bem: meu vice, aliado ao presidente da Câmara dos Deputados e seu partido, querem me tirar do poder para assumir o governo. 

Ellen: Nossa, isso é sério. E de que forma querem tirar a senhora do poder? Cercaram o Congresso com as Forças Armadas, ou algo do tipo?

Dilma: Não, querem me tirar do poder via impeachment.

Ellen: Hmm, e qual a alegação que dão para o Impeachment? 

Dilma: Olha, dizem que eu cometi crime de responsabilidade ao fazer pedaladas fiscais. 

Ellen: "Pedaladas fiscais"... O que é isso? 

Dilma: No que se refere a questão das pedaladas, seria atrasar o repasse de dinheiro para os bancos públicos com o intuito de "disfarçar" para o mercado financeiro, dando a impressão de que o governo está com despesas menores. As instituições financeiras que financiam alguns projetos do governo – como benefícios sociais e previdenciários – acabam por utilizar o próprio dinheiro para pagar estas despesas, evitando que os beneficiários destes planos sejam prejudicados. Com esta medida, o governo consegue "tapear" o mercado, fazendo aumentar o superávit primário e impedir um déficit primário, que consiste quando as despesas do governo são maiores do que as receitas. Por outro lado, as dívidas do governo com os bancos e instituições financeiras aumentam. E tudo isso é proibido pela Constituição Brasileira. 

Ellen: e a senhora fez isso? 

Dilma: Bem, fiz, mas... 

Ellen: Mas então a acusação é legítima? 

Dilma: Sim, mas... Mas todo mundo no Brasil faz isso. 

Ellen: Todo mundo quem? 

Dilma: Meus antecessores fizeram, todos os governadores de estado fazem todos os anos. Por que só eu seria punida? 

Ellen: Mas o fato de todos os outros fazerem não legitima o fato de a senhora fazer, não acha? 

Dilma: não, mas é que... Cê sabe, estão me perseguindo. 

Ellen: Quem está te perseguindo?

Dilma: A imprensa, a Direita e o PMDB, o partido do Michel.

Ellen: Quem é Michel?

Dilma: Meu vice. Ele e o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha querem me tirar do poder.

Ellen: Realmente, são duas forças poderosas contra a senhora. Ainda há alguém apoiando a senhora no Brasil?

Dilma: Sim, bastante gente. Meus ministros estão ao meu lado, alguns saíram, mas os que ficaram estão ao meu lado. Meu partido me apoia integralmente, há outros partidos de esquerda em minha defesa e uma parte da população está ao meu lado. 

Ellen: E mesmo com um apoio tão amplo a senhora se sente perseguida, é isso? 

Dilma: Sim. Há uma perseguição contra mim e contra meu partido, o PT.

Ellen: e o PT está no poder há quantos anos?

Dilma: Treze anos. 

Ellen: E mesmo sendo perseguido o partido conseguiu ficar todo esse tempo no poder?

Dilma: É...

Ellen: E como conseguiu chegar à ONU hoje? 

Dilma: No avião das Forças Aéreas Brasileiras. 

Ellen: E quem ficou no seu lugar no Brasil?

Dilma: Meu vice.

Ellen: O tal "Michel", o mesmo que quer tomar seu lugar?

Dilma: Sim.

Ellen: Mas não há um golpe ocorrendo no país? Como a senhora consegue sair do país e ainda usar a Força Militar do seu país para viajar tranquilamente? 

Dilma: Bom... 

Ellen: E como a senhora viaja e deixa o organizador do golpe no seu lugar? Não tem medo de ele aplicar um golpe de Estado enquanto a senhora estiver fora para destituí-la do poder?

Dilma: Não, as instituições brasileiras são sólidas, isso é impossível acontecer. 

Ellen: Então, isso não me parece clima de golpe. 

Dilma: Olha, minha filha, cê não quer acreditar não acredite. Mas há sim um golpe ocorrendo no país. 

Ellen: Presidente, em clima de golpe o presidente mal consegue sair da cadeira para ir ao banheiro. Em clima de golpe todo o entorno do presidente conspira contra. A senhora tem ao seu lado as Forças Armadas, seus Ministros, seu partido. A senhora consegue viajar tranquilamente com a garantia de que vai conseguir voltar e assumir o mandato de novo. A senhora veio pedir asilo nos EUA? 

Dilma: Não, não preciso de asilo. 

Ellen: Então não há golpe, presidenta. Pelo que a senhora mesma disse, há um crime de responsabilidade cometido pela senhora e um processo de punição correndo no Parlamento do seu país. Não há golpe nisso. 

Dilma: Mas o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, que foi quem autorizou a abertura do processo de impeachment, tem dinheiro na Suíça e responde por vários crimes. 

Ellen: Sim, a reputação dele não é boa por aqui. Mas esses crimes cometidos por ele têm relação com a abertura do processo de impeachment? Ele usou esse dinheiro da Suíça para comprar votos dos deputados para conseguir apoio ao impeachment? 

Dilma: Não. 

Ellen: E ele está sendo investigado por essas denúncias? 

Dilma: Sim, a Polícia Federal brasileira  e o Supremo Tribunal Federal tem uma investigação aberta contra ele. Ele corre risco de ser preso a qualquer momento. 

Ellen: E no processo de votação do impeachment ele não usou o dinheiro da Suíça, e apenas usou da atribuição de presidente da Câmara para abrir o processo e deixar que a Câmara fizesse o resto, certo? 

Dilma: (silêncio). 

Ellen: Presidenta, me desculpe mas não vejo nenhum tipo de golpe ocorrendo no seu país. A senhora tem sim o direito de se defender, mas acusar um processo embasado em crime e amparado na Constituição do seu país não é golpe. 

Dilma: Sua golpista, cê deve fazer parte do PIG.

Ellen: O que é PIG?

(Entra o comercial). 

Um outro olhar sobre a prostituição | Profissão Prostituta #1



Isa, acompanhante de SP. Foto: André Oráculo




Acabamos de sair do Carnaval, época do ano em que "tudo é liberado", onde é permitido beijar na boca à vontade, transar como se não houvesse amanhã sem sequer perguntar o nome, perder a conta de quantas mulheres se "pegou" numa noitada, com uma única recomendação: use camisinha. Desde que o preservativo esteja na carteira, a permissividade é total, e até elogiada por alguns "comentaristas". 

E não, não sou contra nada disso. Você é adulto e livre pra fazer o que bem entende.  

Mas algumas coisas são curiosas: no carnaval, homens se vangloriam de terem ficado com várias mulheres, de terem transado loucamente e levado para cama uma mulher com quem não tem a menor intenção de manter um relacionamento. A quarta-feira de cinzas é o dia oficial de contar aos amigos as "aventuras" do feriado: com quantas saiu, qual delas foi para a cama, como foi o sexo, se ficou ou não com o telefone de alguma, e por aí vai. Por que? Porque o sexo nesse caso é apenas um momento de diversão, serve apenas para relaxar, para se divertir, sem qualquer compromisso de relacionamento. Sexo e amor são coisas completamente diferentes, suprem necessidades diferentes no homem, e essa diferença fica muito explícita no carnaval - aliás, muitas coisas ficam explícitas no carnaval... 

Pois bem, vou pegar uma frase do parágrafo acima pra chegar onde quero chegar: você levou para cama uma mulher com quem não tem a menor intenção de manter um relacionamento. Isso é errado? Na minha visão, não. Mas se essa mesma mulher, essa que aceitou transar com você sem qualquer compromisso posterior resolve cobrar por isso, vira uma "vagabunda", "mulher da vida", "puta", dentre outros vários adjetivos que se queira dar. 

Sim, meus amigos, a prostituição é uma realidade da nossa sociedade. Elas estão por aí, nos flats, nos bares, na internet, oferecendo aquilo que elas sabem fazer de melhor: sexo. Porém ainda carregam um pesado estigma social pelo simples fato de cobrarem por algo que muitas outras fazem de graça: suprir a necessidade sexual de outros.

É interessante: vivemos numa sociedade que se diz "evoluída", "aberta" e sem preconceitos, onde tudo é permitido e o que conta é a consciência de cada um no momento de escolher o que é o melhor ou não para si, mas se uma mulher resolve, de livre e espontânea vontade, sem a pressão de um "agenciador", usar o próprio corpo para proporcionar prazer e cobrar por isso, ela perde completamente qualquer status social que uma mulher "digna" possa ter. Por que? "Nossa, ela cobra por sexo". Tá, e daí? Ela está ganhando o dinheiro dela trabalhando com uma necessidade humana: a necessidade de sexo. 

Todos nós, desde Alexandre Frota ao padre Fábio de Melo, passando por Inri Cristo, temos desejo de sexo. Tesão é uma sensação humana (e tesão é nome científico, tá?) inerente ao nosso biológico, uma necessidade como outra qualquer. Sentimos vontade de rir, de viver aventuras e de transar. Temos os comediantes que nos fazem rir, parques e passeios que proporcionam aventuras, mas se uma profissional resolve proporcionar sexo vira uma vagabunda. Dizem até que a prostituição - nomezinho esse carregado de um estigma pejorativo horrível - é a profissão mais antiga do mundo. Sabe por que? Muito antes da necessidade de jogar vídeo game, de falar no celular, de ver TV, de ir ao cinema, temos vontade de fazer sexo. Sexo é uma necessidade básica. Se uma pessoa percebe que faz os outros rir com facilidade se dedica ao humor e pode inclusive vir a se tornar um grande humorista. Se uma pessoa percebe que gosta de lidar com o corpo humano, gosta de lidar com a saúde das pessoas, estuda medicina e pode vir a se tornar um bom médico. Mas se mulher que gosta de sexo, que percebe ter a beleza necessária para chamar a atenção e não tem qualquer tabu com relação ao sexo resolve fazer disso um mercado a ser explorado, vira "mulher da vida". 

Sim, vivemos num mundo capitalista, onde se cria necessidades para se vender facilidades. Mas, curiosamente, a necessidade que não se cria, se é intrínseca ao ser humano, que vem conosco desde o nascimento, é exatamente a mais reprimida. A série O Negócio, exibida em 2013 pela HBO, mostrou na ficção o que existe na realidade: um mercado de desejo sexual a ser explorado, e mulheres inteligentes e bonitas querendo explorar esse nicho. O sexo, nesse sentido, vira um produto a ser vendido. Totalmente sem romantismo, não? Mas há algum crime nisso? 

O que estou tentando dizer - não sei se consegui ser claro, o tema é mais complexo do que se imagina - é que vivemos numa sociedade hipócrita, onde o sexo serve está presente em tudo (na propaganda, na TV, no comércio, nos esportes), mas se alguém resolve fazer uso profissional dele para viver é tachado de "imoral". Como assim, imoral num país onde o carnaval é recheado de conotação sexual do primeiro ao último dia? Como assim imoral num país que se orgulha de ter as mulheres mais bonitas do mundo? Meu amigo, imoral é usar da boa fé de inocentes para conseguir vida fácil, e se tem alguém que não tem vida fácil são as profissionais do sexo, ou as "acompanhantes", todos os dias expostas aos mais diversos tipos de homens, dos mais diversos tipos de temperamentos e expectativas. 

Alguns vão argumentar que nem sempre as acompanhantes são as mulheres inteligentes e bem resolvidas consigo mesmo como descrevi acima. E é verdade. Existem, sim, mulheres que vivem em regime quase escravo, sendo forçadas por um cafetão cruel a transarem com homens nojentos em troca de um tratamento dentário ou de um café da manhã nos interiores do Brasil. Existem adolescentes que mal menstruam e já entram no submundo da exploração sexual. Sim, isso existe, é crime e deve ser combatido. O que não dá é pra comparar a exploração sexual com o trabalho de moças que optam, por livre vontade, por trabalhar com o sexo. São coisas totalmente diferentes. 

Um dos problemas que surgem quando falamos em prostituição é a visão que temos do sexo. Ainda influenciados pela nossa cultura mergulhada nas tradições cristãs, vemos o sexo como algo super importante, romântico, quase sagrado, e que deve ser respeitado.  Existe toda uma visão romantizada do sexo, uma visão religiosa que o vê como complemento do amor. E acredito nisso também. Não há amor sem sexo, mas há sim sexo sem amor. São coisas diferentes. Se você tem alguém que ama, com quem compartilha sua vida, irá desejá-la e querer transar com ela. Se não tem, irá querer satisfazer sua necessidade de sexo do mesmo jeito. Que seja então com alguém que está lá apenas para isso, que tem a cabeça aberta o suficiente pra entender sua necessidade, assim você não cria expectativas em ninguém, nem machuca o coração de ninguém. Quer amor? Encontre uma companheira. Quer apenas sexo? As acompanhantes estão aí pra isso.

Só tem uma coisa: tanto a companheira como a acompanhante tem o mesmo direito de serem tratadas como mulheres, com o devido respeito à sua integridade. Um cara que é babaca com uma acompanhante provavelmente o será também com namoradas, amigas e etc. Boas maneiras cabem em qualquer situação. 

Mais amor, e mais sexo, por favor!

A Garota na Teia de Aranha - David Lagercrantz #Livros




Terminei de ler A Garota na Teia de Aranha, o tão esperado lançamento de David Lagercrantz e que marca a continuação da série Millenium, de Stieg Larsson. 

A Millenium, revista criada por Mikael Blomkvist e que se tornou referência no jornalismo investigativo da Suécia, não está bem das pernas. Em crise financeira, viu parte de suas ações serem adquiridas pelo maior grupo de mídia do país, que inicialmente disse que queria apenas investir na revista, mas que meses depois se sentiu na liberdade de interferir no conteúdo da publicação. Para conter isso Mikael precisa urgentemente de um novo furo jornalístico, o que, a julgar pelo vácuo criativo no qual a redação da revista se encontra no momento, está longe de acontecer. Mas tudo muda depois de uma ligação de um jovem que recomenda a Mikael que procure pelo renomado professor Franz Balden, uma das maiores referências em tecnologia do mundo mas um homem completamente confuso em sua vida pessoal. Acredita-se que Balder tenha informações importantíssimas sobre novas descobertas científicas e tecnológicas sobre inteligência artificial capazes de mudar os rumos do mundo, descobertas essas que estariam em grande risco de cair em mãos erradas. Porém Mikael não consegue falar com o professor antes de uma tragédia imprevisível acontecer, que mudou não só o rumo das coisas, como trás à luz uma rede de traições, venda de informações importantes, com a participação de nomes do alto escalão da NSA, a agência de segurança americana. Boa parte dessas informações podres sobre a NSA só vieram à luz após a rede da agência ser misteriosamente hackeada, mesmo com todos seus altíssimos critérios de segurança. O hacker, ou melhor, a hacker, é alguém bastante conhecida de Mikael. Sim, é ela mesma: Lisbeth Salander. Mas, mais do que descobrir intrigas entre funcionários, Lisbeth torna-se alvo de uma rede de hackers, a Spiders, que tem objetivos bem específicos e vê seus planos frustados pela ação da jovem hacker que parece cruzar para sempre o caminho da grande líder dos Spiders, a jovem e incrivelmente bela Kira. Mikael e Lisbeth, apesar de em pontos diferentes, se veem dentro da mesma teia, e precisam urgentemente encontrar um modo de sair e desmontar a atuação poderosa dos Spiders antes que seja tarde. 


O livro foi lançado após uma onda de expectativa em todo o mundo. Morto em 2007, Stieg Larsson sequer viu publicados seus primeiros três livros, Os Homens que Não Amavam as Mulheres, A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar, todos eles best-sellers em todo o mundo e que tornaram conhecidos a dupla de protagonistas Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander, ele o jornalista investigativo que tem como missão trazer a público a sujeira do mundo político e empresarial sueco, e ela a típica personificação do antiheroi que tem sede de resolver problemas e corrigir injustiças, mas nem sempre das formas mais éticas ou aceitáveis.

A história é muito empolgante, bem ao estilo dos romances policiais suecos. Os personagens são os mesmos: o inspetor Jan Bublanski "bubolha", a investigadora Sonja Mondig, o questionável procurador Richard Ekström, a companheira e amante de Mikael, Erika Berger, além da redação da revista Millenium. Mas o enredo é contagiante. Novos informações surgem a todo momento e quando você pensa que descobriu algo, vem um detalhe e muda tudo. Mas, diferente de Stieg Larsson, David Lagercrantz dá ao leitor um poder quase onisciente. Em boa parte da história os personagens vão fundo par descobrir fatos que o leitor já conhece há um bom tempo.

Mas há um outro lado. Se o estilo de escrita de Stieg Larsson é totalmente diferente de David Lagercrantz, o que é perfeitamente natural e esperado (e isso fica nítido em vários momentos no livro), por outro lado o novo autor pareceu ter tanto ouro nas mãos que em vários momentos não soube como usá-lo, algo compreensível se pensarmos que David Lagercrantz é um autor sem nenhuma experiência em romances policiais e que recebe a missão de escrever, como seu romance inicial, um livro do nível da série Millenium. A história fica confusa em alguns pontos (os Spiders mereciam uma abordagem muito mais profunda do que a que receberam, já que eles dão nome ao livro; falo sobre isso depois), superficial em outros, ou inexplicável em algumas situações, além da total mudança na personalidade de alguns dos personagens. A principal, Lisbeth Salander, quase se despersonaliza em alguns momentos. O autor teve tanta preocupação em retratar Lisbeth como alguém "fora do comum" que em alguns momentos na história só faltou dizer que ela tinha superpoderes! Em determinados momentos pensei que Lisbeth iria voar! A Lisbeth revoltada e estranha de Stieg Larsson virou uma personagem caricata, com uma força fora do normal que "explica" algumas atuações completamente estranhas dela na história. Mikael está, na nova história, mais apático do que o normal. Tudo bem que o enredo explica isso, mas mesmo assim não consigo ver o "super-Blomkvist" (título que ele odeia) retratado da forma como Lagercrantz o retrata algumas vezes.

Mas há algumas sacadas geniais no livro. Não sei se essas sacadas fazem parte do rascunho que Stieg Larsson deixou escrito antes de morrer, mas são momentos na história que casam perfeitamente com os demais livros. A ideia de inteligência artificial e os perigos de isso cair em mãos erradas, os Spiders e sua líder misteriosa, que encerra um ciclo importante das histórias anteriores - a família conturbada de Lisbeth.

Só um detalhe, que não vi escrito em outros lugares, mas que percebi nitidamente conforma a história transcorria: a tradução do título para o português está errada. O título em inglês, The Girl in the Spider's Web não quer dizer A Garota na Teia de Aranha - ou A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha, em Portugal (sim, o título lá é esse!). Bom, numa tradução literal quer dizer isso, mesmo. Mas no livro, "Spider's web" tem uma outra conotação, muito mais significativa que o literal "teia de aranha". Numa sugestão arriscada minha, penso que uma tradução mais fiel a história seria A Garota que Caiu na Rede dos Spiders, ou algo do tipo.

Enfim, para os fãs da série Millenium a história é bastante diferente do original, mas tão surpreendente quanto os livros anteriores. Não tem como não ler e não esperar a continuação que o autor já disse que haverá - e que o final deixa claro que existirá. 

Trinta Vezes Três #30 Anos



Não é fácil chegar aos trinta anos. Cheguei a eles ontem, dia 15 de agosto, mas ainda não acostumei com a ideia. Vai levar uns dias pra aceitar que saí da casa dos vinte. 

Acho que é por isso mesmo que chegar aos trinta é difícil. Não sou mais o “garoto com um futuro todo pela frente”. Já cheguei nesse futuro que me falavam há dez anos atrás. Espera-se de um cara com trinta anos que, se já não tem algo bem sucedido na vida, que tenha pelo menos um bom projeto engatilhado. E não tenho nem um nem outro. Ainda estou na fase de descobrir o que quero da vida. Mas será que algum dia a gente descobre exatamente? 

As vezes esqueço a idade que tenho. Penso que ainda sou o adolescente de 17 anos – e as vezes me comporto com um. Aliás, alguns dos melhores amigos que tenho tem menos de 20 anos. As vezes, pra minha alegria, alguns deles falam “meu, eu pensei que você tivesse tipo, minha idade, sei lá!”. Quem dera! 

Agora, olho para minha vida e faço aqueles questionamentos que a gente faz quando tá na bad, ou quando tá bêbado, sabe? Coisas tipo “o que eu tenho na vida?” Bom, faço coisas que gosto – gosto de tudo que faço? Não, mas quem gosta? Tenho à minha volta pessoas que sei que gostam de mim do jeito que eu sou, mesmo com minhas imperfeições e manias. Tenho sim, meus traumas e meus problemas, mas venho tratando todos eles, um a um. Tenho uma família que, mesmo pequena, se importa comigo. Que mais eu quero? 

Chego aos trinta com novo ânimo. Tenho a vontade de viver dos 20, a responsabilidade dos 40 e os cabelos brancos dos 70. E assim vamos levando. O futuro? Não sou eu quem me navega. Quem me navega é o mar, então deixa a vida me levar. Vida, leva eu? 

Se continuar como estou hoje, quero viver mais trinta. E outros trinta. Se chegar aos noventa com a vontade de viver que tenho hoje, sei que terei sido muito feliz. O que vai me acontecer? No caminho eu descubro.

Carpe Diem