Weslleytown | #Reflexão






Weslleytown é o melhor lugar do mundo pra se viver, dependendo do ponto de vista. 

Em Weslleytown não existem adversidades. Os problemas da vida moderna são apenas coisas externas, dessas que a gente só sabe que existe por ver falar na TV. Não existe desemprego, não existe a aflição pelo medo de perder o emprego. Todos por lá tem uma boa renda financeira, que permite a cada morador viver de forma digna e confortável, sem grandes extravagâncias, mas com a dignidade necessária a cada pessoa. 

As pessoas em Weslleytown são perfeitas. Os moradores são honestos, educados, respeitam o direito um do outro o tempo inteiro, pensam sempre no coletivo acima do individual. Empatia é a palavra que define a personalidade dos moradores de lá. 

E as famílias? Ah, as famílias de Weslleytown são perfeitas. Os casais se amam e se respeitam, não se sobrepõem jamais  um ao outro. Marido cuida da família e trás o sustento para casa, esposa cuida da casa e dos filhos, de maneira exemplar, e os filhos respeitam pai e mãe da maneira como deve ser. 

Em Weslleytown as pessoas não tem religião, mas seguem princípios cristãos que permeiam seu comportamento, sua forma de ver a vida, de se relacionar com as pessoas. Os ensinamentos cristãos formam a base comportamental dos moradores, e norteia a vida de cada um.

As mulheres de Weslleytown são "belas, recatadas e do lar". São discretas, usam roupas sóbrias, que não chamam muito a atenção de ninguém, tem poucos amigos - sempre mulheres, pois as mulheres de Weslleytown evitam amizades com outros homens para não darem o que falar na vizinhança. Se preservam para o homem certo, o homem escolhido, aquele homem com quem ela irá se casar e formar uma família feliz, dentro dos padrões da cidade. 

Os homens de Weslleytown são sérios, respeitadores. Evitam sair à noite, tem poucos amigos e preferem muito mais estudar do que qualquer outra diversão. Os homens de Weslleytown gostam muito de ler, e fazem desse hábito seu principal estilo de vida. 

As pessoas de Weslleytown não gostam de praia, nem frequentam estádios de futebol - aliás, não existem estádios de futebol em Weslleytown. Os homens assistem pela TV, e as mulheres não acompanham futebol, assim como deve fazer uma moça de bem. 

Em Weslleytown não existe funk, música sertaneja, nem qualquer outro estilo musical do momento. Rádios como Metropolitana, Rádio Disney são expressamente proibidas por lá. Por lá as pessoas gostam de rock, e apenas os rocks mais melódicos - metal, heavy metal são completamente abominados por lá. 

Weslleytown é um lugar perfeito, pensado milimetricamente para ser o lugar ideal, o paraíso desejado, a utopia, o destino final a ser conquistado. As pessoas de Weslleytown são o padrão perfeito de comportamento, aquilo que se busca em si mesmo e nos outros.

Weslleytown só tem um problema. 

Weslleytown não existe. 

Weslleytown é meu infinito particular, o lugar que existe apenas dentro de mim, de onde eu tiro todas as referências de pessoas e comportamentos que quero para minha vida. O problema é que ela existe apenas dentro de mim, e querer que outras pessoas se enquadrem no padrão que eu criei para mim mesmo é o mesmo que me auto-condenar a uma vida de solidão, pois ninguém tem a obrigação de ser da forma como eu quero que seja. 

"Cada um de nós compõe a sua história", já dizia a música. E quase todos os erros que me fizeram perder pessoas ao longo da vida começaram em eu querer que as pessoas vivam a minha história, se comportem da forma como eu digo que deve ser. Já afastei da minha vida pessoas incríveis porque não se enquadravam nos padrões de Weslleytown, a cidade-modelo do meu interior. 

Sair de Weslleytown é minha meta, é um dos meus planos de vida. Conhecer outras formas de vida, outros estilos, outras histórias, e a partir daí ampliar meus horizontes, me permitir viver coisas legais com pessoas que não se encaixam nos meus padrões de vida. 

Sim, é difícil. A vida em Weslleytown não é ruim, tenho tudo o que quero. Mas sozinho. Apenas eu moro nessa cidade. Para ver outras pessoas, preciso sair de lá. 

Não vou abandonar Weslleytown, pois tenho também o direito de ter minha própria personalidade, preciso respeitar minha história e quem sou. Quero apenas me permitir conhecer outros estilos de vida, sem precisar renegar quem sou. Quero trazer outras pessoas a Weslleytown e permitir que elas povoem esse lugar com suas histórias de vida. 

Weslleytown, meu infinito particular, pode ser muito mais rico com as experiências de outros. 

Bagagem




Imagine que você vai voar com sua namorada para alguma viagem curta, e cada um de vocês leva uma bagagem, uma mala com suas coisas pessoais indispensáveis para os dias em que vão passar fora de casa. A bagagem é um pouco grande, e acaba se tornando desconfortável. Você, para ser gentil, se oferece para levar a mala dela, e carrega as duas. A mala continua pertencendo a ela, mas é você quem a está carregando. Ao embarcarem, coloca primeiro a mala dela no compartimento de bagagens, e percebe que não tem mais espaço para a sua, porque algum folgado resolveu preencher o espaço dele e de mais uma pessoa. Você precisa espremer sua mala em qualquer vão disponível, pois o espaço que seria da sua mala você cedeu para a mala dela. Mas lembre-se: ter feito tudo isso não te torna dono da bagagem dela, nem te dá o direito sequer de saber o que ela carrega. Se ela quiser te falar o que ela trouxe na mala é uma opção dela, mas ela não é obrigada a te dizer. 

Assim funciona com os relacionamentos. 

O passado de cada pessoa é como uma bagagem que cada um carrega consigo, para o resto da vida. Uma bagagem fechada, lacrada, onde somente o próprio dono tem acesso. Você não tem o direito de querer saber com detalhes o que aconteceu no passado dela, os relacionamentos anteriores, com quem ela já se envolveu, para quem ela já se declarou. Essas coisas dizem respeito a vida dela, e apenas dela. Se ela tiver interesse em te contar em algum momento, é uma opção dela. E tenha certeza: quanto menos você se preocupar em saber sobre o passado dela, mais à vontade ela vai se sentir para contar. Mas não, ela não vai contar tudo. Nenhum de nós conta tudo o que já aconteceu na vida para ninguém. Todos nós temos episódios na nossa vida que guardamos, que preferimos que ninguém saiba, pequenos - ou grandes - segredos que iremos levar escondidos para o túmulo. Segredos que não contamos para ninguém, as vezes nem para a pessoa que amamos. 

Assim como você não tem o direito de saber o que já aconteceu no passado dela, você também não tem a obrigação de tentar ajuda-la com o que já ocorreu na vida dela antes de te conhecer. Você é o companheiro dela, não o tutor. Assim como ela, você também tem sua mala, também tem seu passado para carregar, e carregar duas malas é esforço demais. Deixe que ela cuide do passado dela. Os ex dela são problema dela. Ela é adulta, maior de idade e responsável por si mesmo o suficiente para cuidar da própria vida. 

Deixe que ela leve a bagagem dela. E você carrega a sua. A viagem será muito mais agradável, sem sobrecarregar nenhum dos dois. 

Ensaio sobre confiança e autoconfiança | #Reflexão



Você precisa escolher confiar nela. E em você.

Sim, apenas confiar. 

Porque você só tem duas alternativas, cara: ou você confia na pessoa que está com você e entrega a ela a responsabilidade de te respeitar cuidar da sua confiança, ou você surta e dá crises de ciúme feito adolescente inseguro que tenta a todo custo, e sem sucesso, disputar a atenção dela com todas as pessoas que ela conhece. 

Ainda não inventaram um microchip que acompanhe os passos da pessoa amada, que monitore em tempo real as conversas de WhatsApp, as directs do Instagram, as conversas presenciais, o que ela pensa, e te forneça relatórios e gráficos diários de tudo isso com os índices e percentuais de probabilidades de levar um chifre. E mesmo que isso já tivesse sido inventado, essa seria a pior e mais doentia invenção do mundo, pois teria como única finalidade alimentar a neura dos inseguros. 

Sim, ela tem amigos. No masculino, mesmo. Amigos. Homens. Amigos que ela já conhecia antes de você, e com quem ela sempre se deu bem. Ela tem amigos a quem ela considera, de quem ela gosta e quer estar por perto. Amigos que ela vai querer convidar no aniversário dela, ou com quem ela vai compartilhar algum meme bobo e zuar quando o time perder. Ela tem amigos, e já os tinha antes de sequer saber que você existia. 

Sim, ela tem um passado. Ela já teve outros relacionamentos antes de te conhecer e, mesmo que viraram passado, em algum momento eles foram bons, tanto que ela os manteve por algum tempo. Talvez alguns tenham sido bons, e terminaram por algum acontecimento da vida que os separou, talvez algum tenha sido um relacionamento tóxico, que tenha deixado nela marcas doloridas. Como foi cada um desses relacionamentos? Talvez ela te diga um dia, talvez ela guarde com ela pra sempre. 

E sim, esse passado dela inclui já ter ficado com outros caras, já ter beijado outras bocas antes da sua. Alguns talvez próximos dela, com quem ela ainda mantenha contato e ainda seja amiga. Outros talvez foram casos de um dia, ou de uma noite. Alguns do Tinder, outros indicados por alguma amiga. Mas ela já ficou com outros caras antes de você.

Ah, é bom lembrar: ela não é virgem - provavelmente. Isso significa que ela já transou com outros caras antes de você. Outros caras já arrancaram a roupa dela e a viram nua antes, e já acariciaram o corpo dela. Outros já a levaram em moteis, na casa de alguém, ou até mesmo transou no carro de outros caras por aí. Alguns outros caras já deram a ela algum prazer antes de você, por menor que tenha sido. Ela já beijou a boca de outro cara enquanto sentava nele, já chupou outras rolas. Sim, ela já esteve na cama com outros caras. Peguei pesado, né? Eu sei. 

Ela vai contar sobre todo esse passado pra você? Não. E por que não? Simplesmente porque ela não precisa contar nada disso pra você. Ela vai levar tudo isso com ela; talvez alguma amiga muito próxima conheça algumas dessas histórias, mas para você ela não vai contar nada disso. Ela não tem que te contar, e você não precisa saber. Passado é passado.

Assim como ela também não vai te contar com detalhes o que se passa no dia a dia dela. Ela não vai te contar se algum colega do trabalho está a fim dela, ou se o cara com quem ela ficou no ano passado pediu para ficar de novo. Ela não vai te falar se o ex mandar mensagem dizendo que está com saudade. Ela não vai te contar nada disso, sabe por que? Porque ela não precisa. Ela é adulta, dona do próprio nariz, e pode lidar com isso sozinha. Você não é o pai dela para atuar por ela. Nem o pai dela deve fazer isso por ela, quanto mais você.

Você vai ter que lidar com tudo isso. 

Por que maturidade é isso: é saber lidar com a bagagem que a outra pessoa trás junto com ela, e apenas a observar carregar, sem precisar ajudá-la a levar, nem muito menos querer abrir para ver o que há lá dentro. A bagagem é dela. Ela vai levar com ela para sempre. Se ela quiser abrir e mostrar para você alguma coisa do que há lá dentro, ótimo. Se ela não quiser, é uma opção dela. E você não pode fazer nada a não ser respeitar essa opção dela. Contente-se em não estar dentro da mala e não ser apenas mais um item da bagagem. 

Vivemos em uma sociedade altamente machista, onde se espera que o homem assuma o papel de controlador da relação, de "homem", de "macho alfa", sob o risco de ser taxado de "frouxo", de "corno" e outros adjetivos horríveis e completamente carregados de um preconceito pesadíssimo. Porém pense de forma muito sincera: é esse papel que você quer exercer? De verdade? Porque esse papel não é nada saudável para ela, muito menos para você. Além de gerar uma ansiedade absurda em você, pode gerar nela um sufocamento que a vai fazer querer - adivinha o que? - buscar coisas novas por aí. E aí você descobre que sua desconfiança é exatamente o gatilho que a faz querer conhecer gente diferente de você.

Entenda o seguinte: você é o momento atual dela, e isso basta para você. Ela deve ter algum ex querendo voltar, e algum amigo pedindo para ficar, mas é com você que ela está. Ela abriu mão dos outros para estar ao seu lado. É a sua boca que ela beija agora. É com você que ela transa. É para você que ela manda mensagens fofinhas dizendo "eu te amo". É com você que ela planeja fazer coisas legais. É as fotos com você que ela posta com legendas românticas. Aprecie isso. Viva o seu momento atual, e o momento atual dela. Se você souber viver o presente e ignorar o passado, provavelmente vocês terão um futuro. 

Correndo o risco de ser repetitivo, você não tem outra escolha a não ser confiar nela. 

"Ah, mas corro o risco de quebrar a cara". Pra não correr esse risco, só estando sozinho. O InMetro ainda não criou nenhuma certificação que diga ser as pessoas são confiáveis ou não. Não existe nenhum ISO que meça isso. Pra descobrir, só se relacionando. E sim, há o risco de ela não respeitar a sua confiança; há o risco de ela ficar com alguém mesmo dizendo que te ama. Há o risco de ela querer matar a saudade de algum ex, enquanto você posta fotos com ela nas suas redes sociais. Mas essa é uma responsabilidade dela. Isso diz muito mais sobre ela e sobre o caráter dela do que sobre você. 

"E se isso acontecer?" Saia fora. Simples assim. Sem escândalo, sem tirar satisfação, sem matar a menina - pelo amor de Jeová. Apenas saia fora. Se ela não soube lidar com sua confiança, outra saberá. Nem toda mulher é filha da puta, assim como nem todo homem é imprestável.

Você não é dono dela. Você não é dono de ninguém. Sequer de você mesmo. Então não sabote sua relação por causa do seu medo bobo e sua insegurança. Não sabote sua vida. Viva as coisas boas que você tem para viver. Viva com ela, mas viva também apesar dela. Você existia antes de a conhecer. Continue vivendo sem tê-la. Não dependa dela. Não a prenda. Quanto mais você prender, mais ela vai fugir de você. Quanto mais você depender dela, menos ela vai depender de você. E aí, o que pode acontecer? Ela vai embora, encontra outro cara que aceite tudo isso e você fica sozinho, perdido nas suas neuras infantis enquanto todos os outros vivem relações bonitas e saudáveis.

Viva para você. Acredite em você. Ela te quis, então algo legal e atraente você tem. Se vocês derem certo, que bom. Se não der certo, valeu a tentativa. Mas confie em você mesmo. Seja você. Se tiver algo para melhorar, melhore hoje. Não porque você não quer perdê-la, mas porque você não quer se perder. 

Confiança e autoconfiança são duas faces da mesma moeda. Quanto mais você confia em você mesmo, mais você vai confiar nos outros. Quanto mais você se respeita, mais você será respeitado.  E isso é lindo. Essa é a beleza da vida. 

Viva isso. Curta isso. 

Estranho | #Reflexão




Essa terra não é a minha
Esse povo não é o meu
Às vezes eu me pergunto:
“O que foi que aconteceu?”

Essa gente é tão estranha
Não entende o que eu falo
Até tento puxar assunto,
Mas desisto e então me calo.

Essa gente acha estranhos
Os costumes que eu tenho
Mas eu só repito os hábitos
Do lugar de onde venho.

Essa gente é esquisita
Se contenta com tão pouco
Se fosse na minha terra
Seriam chamados de loucos

Essa gente se acha rica
Porque tem algum dinheiro
Mas nem sabem que minha terra
Tem riqueza o ano inteiro

As vezes eu me pergunto
"O que foi que aconteceu?"
Essa gente é estranha mesmo
Ou o estranho aqui sou eu?

Igual a Todo Mundo | #Reflexão




As pessoas fazem de tudo para serem diferentes. Mudam visual, adotam um novo estilo, aderem à tribos. Até mesmo os mais “comuns”, os “normaizinhos” batem no peito para exaltar as características, mesmo que poucas, que os difere dos outros. Querem se destacar da multidão. Querem ser vistos com outros olhos, de um jeito especial. Alguns, na tentativa de se destacar dos demais, passam a vociferar palavras de ódio contra uma “sociedade morna”, que “faz tudo igual”. Atacam o “comportamento de boiada” e dizem que só os que são diferentes é que tem sucesso na vida. Querem por toda maneira serem reconhecidos por não serem iguais aos demais. 

Eu não. Eu quero mesmo é ser igual a todo mundo. 

Quero me sentar na mesma mesa de bar que todo mundo senta para beber a mesma cerveja que todo mundo bebe nas sextas-feiras à noite, como todo mundo faz. Quero rir das mesmas piadas sem graça que todo mundo ri. Quero comer os mesmos petiscos que todo mundo come. Quero ver o filme que todo mundo mundo está vendo, no mesmo cinema em que todo mundo costuma ir. Quero ouvir a mesma música que todo mundo ouve, ou pelo menos saber que existe, caso não faça parte do meu gosto musical. Quero usar o estilo de roupa que todo mundo usa, cuidar do visual como todo mundo cuida. Quero fazer os mesmos passeios que todo mundo faz, comer o mesmo lanche de rua que todo mundo come, correr para pegar o ônibus como todo mundo faz e descer correndo a escada rolante para pegar o metrô que já está na plataforma, assim como todo mundo – ou como todo paulistano.

Assim como todo mundo, quero ser aceito do jeito que eu sou. Quero ter perto de mim pessoas para as quais não preciso disfarçar a voz, murchar a barriga, esconder a cicatriz do braço, mudar comportamento, mentir sobre minha posição social nem minha história. Quero pessoas que não me evitem por eu ter uma doença A ou B, por ter uma disfunção X, ou por não ter o tamanho e peso ideal. Assim como todo mundo, quero ter meu grupinho, minha “panelinha”, gente com quem eu possa ficar à vontade, com quem possa baixar a guarda, sem medo de julgamentos e comparações. 

Assim como todo mundo, quero que lembrem de mim. Que meu nome seja citado quando organizarem algo, que se eu não estiver presente me liguem pra avisar “vamos sair, vem com a gente?”, e mesmo se eu declinar insista com um “faz uma forcinha pra vir, vai ser legal”. Quero que minha companhia seja desejada por alguém. Quero que pensem “ele vai gostar disso” quando virem algo qualquer por aí. Quero que digam “ nossa, lembrei de você ontem”, ou “vi uma coisa que é a sua cara”. 

Assim como todo mundo, quero me sentir parte de algo. Me envolver em alguma ação. Ter um compromisso além do trabalho. Algo para me dedicar nas “horas vagas”. Algo mais sério que um hobbie. Quero ser útil em alguma coisa, e ser indispensável em algum lugar, sem o compromisso do cartão de ponto da empresa. Quero que me falem “você fez falta ontem” quando não puder ir. 

Assim como todo mundo, quero alguém para amar. Quero alguém com quem conversar coisas que não converso com o amigo, comentar sobre o cliente bizarro que atendi no trabalho, alguém que fique quando todos os outros se vão. Alguém que faça parte dos meus planos quando penso no meu futuro. Alguém para quem dar o kit de maquiagem que ganhei acidentalmente na promoção da loja, assim como o aconselhado pela atendente: “leva pra namorada”. 

Assim como todo mundo, quero ver as coisas de um jeito mais simples. Encarar a vida sem o peso que muitas vezes nos auto impomos. Quero não ter tantas regras de convivência, e assim ser mais livre para improvisar, marcar coisas fora de hora, experimentar o que nunca me havia permitido. Quero ter a leveza de viver que nos permite ir onde nunca pensaria em ir, falar sobre o que nunca falaria, conviver com quem eu não conviveria. 

Isso é carência? Se sim, assumo que, igual a todo mundo, sou carente. Talvez porque carência seja exatamente isso: essa necessidade inerente ao ser humano de ser igual a todo mundo. 

Diferente? Pra que? Eu quero mesmo é ser igual.

Prêmio de Consolação | #Poesia



"Precisamos conversar", disse à namorada, que assistia Game of Thrones.

"Espera, é o último episódio da temporada", disse a moça sem olhar o rapaz que estava em pé perto da porta.

"Não dá mais. Não tem como continuarmos juntos", disse ele, em pé com os braços cruzados.

"O que?" - disse, desligando a TV.

E ele começou a falar:

"Quando começamos a namorar, eu sabia muito bem o motivo de você estar sozinha: você foi abandonada pelo noivo que resolveu te trocar pela sua amiga, e ainda fez questão de postar no Facebook que havia te trocado. Quando te conheci você era uma mulher magoada, tomada pela dor da traição. Eu me acheguei a você como um amigo, você lembra? Conversei com você, te aconselhei, por várias vezes enxuguei lágrimas suas enquanto dizia que você iria superar essa. Até que um dia, enquanto víamos um filme juntos no meu quarto, nos deixamos levar pelo momento e só demos conta do que havia acontecido na manha seguinte, quando acordei e vi você nua na minha cama e suas roupas no chão, por cima das minhas. O que eu senti quando olhei você dormindo como um anjo foi mais do que culpa por ter transado com a amiga decepcionada. Pelo contrário, a última coisa que senti foi culpa. Naquele momento eu descobri que te amava. Quando te vi dormindo e suspirando como um bebe que acabou de pegar no sono eu tive a certeza de que te amava mais do que eu podia explicar para mim mesmo, mesmo sabendo que pra você eu era apenas o "amigo fofinho" que te ajudou na sua decepção amorosa. Preferi não te dizer nada sobre o que eu sentia, lembra?

Passaram-se os dias e cada vez ficava mais difícil esconder o que eu sentia. Onde eu ia eu via seu rosto, sentia seu perfume, ouvia sua voz. Seu nome estava presente por todo canto. Eu me sentia um completo imbecil apaixonado. Resolvi te falar do que eu sentia, mesmo correndo o risco de ouvir um 'não' e ainda perder sua amizade. Você me disse que sentia muito afeto por mim, mas ainda não havia esquecido seu noivo, que o amava e pensava nele todos os dias. Então eu, num momento de fraqueza, disse que estava disposto a te ajudar a esquecer seu noivo. Você não respondeu, mas o abraço, o beijo e a noite que tivemos (a segunda) foram como um 'eu aceito'. Daí começamos nosso 'romance', se é que posso chamar assim. Contei para todos que conheço que estava namorando a mulher mais incrível da minha vida. Resolvi esconder os fios de cabelo brancos e fiz regime. Até em academia me matriculei, tudo isso motivado pela alegria de ter você como meu amor. E quanto mais eu me dedicava a você, menos eu sentia o retorno da sua parte.

Por várias vezes você me chamou pelo nome do ex-noivo. Em algumas você se corrigiu, em outras talvez nem tenha percebido. Eu perdoei, já que estávamos no começo e você ainda não havia se recuperado totalmente do relacionamento anterior. Em todas as nossas conversas você citava algo sobre ele. E se desculpava, dizendo que estava se esforçando para me amar do jeito que eu merecia. O tempo passou - um ano, diga-se de passagem - e eu me entreguei por completo. Mas você ainda me chama pelo nome do ex. Ainda fala nele. Ainda tenta me fazer gostar das músicas que ele gostava. Já se passaram um ano e você ainda não o esqueceu.

Então eu decidi que não dá mais. Sim, talvez você tenha se esforçado, mas você não o esquece, e eu não quero ser seu prêmio de consolação, não quero ser um trofeu de vice-campeão. Se depois de um ano você ainda não se convenceu de que seu ex não te quer mais e não consegue levar a vida em frente, sinto dizer mas não posso esperar mais.  Ou eu tenho você por completa, corpo, alma e coração, ou prefiro não ter nada. Se é pra sofrer, prefiro sofrer sozinho do que com uma mulher que não me ama por completo".

Tendo tido isso, abriu a porta e saiu. Ligou o carro e foi embora. Ela o olhou pela janela, ciente de que aquela seria a última vez que o veria novamente. Foi bom enquanto durou ter o Carlos por perto.

Aliás, Carlos não. Carlos é o nome do ex. 

Aprendi | #Crônicas




Que amores eternos podem acabar mais rápido que se imagina.

Que grandes amigos podem se tornar grandes inimigos.

Que pessoas que você admira podem lhe dar o pior golpe.

Que desilusão não é algo tão ruim, pois significa que você estava iludido, e agora não está mais.

Que ouvir conselhos é o melhor remédio e o pior veneno.

Que a gente nunca conhece uma pessoa de verdade, afinal gastamos uma vida inteira para conhecer a nós mesmos.

Que na maior parte da sua vida a única pessoa com quem você vai poder contar é com você mesmo.

Que o “nunca mais“nunca se cumpre; Que o “para sempre“ sempre acaba.

Que vou sempre me surpreender, seja com os outros ou comigo.

Que vou cair e levantar milhões de vezes.

Que usar uma pessoa pra esquecer outra é a pior coisa.

Que vou morrer sem ter aprendido tudo.


(Esse foi um dos primeiros textos postados no antigo Blog Novas Ideias em 2018). 

Entrevista com Deus



(Terminam os comerciais. Entra a vinheta de abertura do programa)

Apresentador: Pronto, pessoal, voltamos! E agora voltamos com tudo, porque nosso convidado é mais do que especial! (Fala em tom de suspense)

(Plateia): oooooh!

Apresentador: Sim, é isso mesmo! As coisas mais belas desse mundo e as maiores atrocidades humanas já foram feitas em nome Dele. Por causa dele pessoas mudaram suas vidas e outras mataram inocentes. Deus, Alá, Brahma, Senhor ou Jeová dependendo da religião, é talvez a figura mais controversa da história. Milhões de crenças no mundo pensam ter a fórmula correta para chegar a ele. Em nome dele igrejas são abertas diariamente. Líderes enriquecem e pessoas simples empobrecem. Para chegar ao nosso convidado as pessoas criam cultos, rituais, magias, caminhos e uma infinidade de formas de alcançar o divino. Mas será que é tão difícil assim esse contato? Nossa produção foi pesquisar, e o resultado é algo totalmente inesperado. Olha só!


(Toca a vinheta novamente. Entra o vídeo com a entrevista. Entrevistador veste camiseta polo azul e calça jeans. Ao lado dele, uma garota de uns 22 anos, cabelos pretos longos até a altura dos ombros. Magra, de aproximadamente 1,60m. Pele em tom pardo. Usa calça jeans clara, camiseta "baby look" branca com o texto "I'm Here" em letras pretas. Pouca maquiagem, batom leve. Usa um tênis branco e nos braços tem uma pulseira simples. Tem ar de garota inocente. Sorri meio sem jeito. Ambos estão sentados num banco de praça de alguma avenida tranquila. Ao fundo, crianças passeiam de bicicleta. O entrevistador está sentado de lado com as pernas cruzadas. A garota mantém as pernas juntas e ambas as mãos apoiadas no banco )


Entrevistador: sim, meus amigos, não tenho a menor dúvida que vocês irão se impressionar, assim como eu me impressionei quando a conheci. De início não acreditei que essa menina fosse quem diz ser, mas ela provou estar falando a verdade, então vamos lá. Essa garota ao meu lado é ninguém menos que Jeová, o Deus Todo Poderoso!

(Garota sorri e abana para a câmera)


Entrevistador: Eu tentei de todas as formas começar a nossa conversa sem mencionar minha surpresa ao te conhecer, mas não consegui. Sinceramente, você é muito diferente de tudo o que eu imaginei a vida toda sobre Deus...
Deus: (sorrindo) Sério? Sabe que sempre me dizem isso? Na verdade até já me acostumei, as pessoas nem sempre me imaginam da forma correta.


Entrevistador: Sim, as pessoas pensam em Deus como um homem...
Deus: ...maduro de uns sessenta anos, meio gordo, de barba branca, cara de bonzinho. Então, esse não é Deus. Esse é o Jô Soares (risos).


Mas você tem sempre essa fisionomia? Porque você não combina nem um pouco com o Deus Poderoso de guerra do Antigo Testamento, muito menos com o Pai de Jesus Cristo do Novo Testamento.
Depende. Gosto de me mostrar assim. Impressiona. Alias, adoro frustrar expectativas. A pessoa vem cheia de imagens sobre mim e páááá! Sou totalmente o oposto. Sobre as imagens antigas, a gente precisa entender que o que se diz na Bíblia - que eu aliás nunca li inteira - se passa em épocas muito antigas, em culturas muito diferentes da atual. No Antigo Testamento a cultura da época era a do "olho por olho", a da guerra, a de resolver as coisas na conquista física. Por que eu iria chamar as pessoas ao diálogo se a forma como se resolviam as coisas era com a guerra? Estamos falando de um mundo bárbaro, um mundo sem qualquer noção de direitos humanos. Eu não sou um extraterrestre para tentar fazer algo totalmente desproporcional. Se as coisas se resolviam na guerra, eu estava na guerra com eles. Quando vi que a coisa tinha se perdido totalmente, que os homens estavam completamente sem rumo, andando sozinhos, achei que era a hora de voltar pra cá, tentar me reconectar com vocês, tentar entender como era viver aqui. Essa era uma sociedade totalmente patriarcal, focada na figura do pai, que sonha em ter um filho homem. Se eu viesse aqui como uma menina de 22 anos ninguém me ouviria. Se eu viesse como um guerreiro forte os mais simples teriam medo de mim. Por isso vim como o "filho de Deus", pra me conectar com os que se sentiam sozinhos, sem uma figura paterna. Não vim como o Pai. Vim como o cara que tinha contato com o Pai. Entende?


Mas então não seria mais correto lhe chamar de "Deusa", já que você é mulher?
Mas eu não sou mulher. Nem homem. É complicado de explicar. Aliás, tudo que me envolve é meio complicado, mas um dia vocês entenderão. Sou mais complexa do que se poderia definir em palavras. Não sou humana, mas não sou um espírito. Gosto de dizer apenas que "Eu Sou". É o que? Quem? Não tem como explicar. Apenas sentir. Saca?

Entendi. Agora, mudando um pouco de assunto, como você nasceu? Quem criou Deus?
Cara, sabe que eu não sei? Não tenho nenhuma recordação da minha infância, nem uma foto, nem nada. Nunca nem vi meus pais, sei lá. Não lembro de nada que se remeta a um passado meu. Só me lembro de estar aqui desde sempre. Estranho, né?


Foi você quem realmente criou o mundo?
Bom, de algum lugar tudo isso aqui saiu, né? Eu tava meio sem ter o que fazer, os anjos ocupados ensaiando, aí pensei: poxa, preciso arrumar alguma coisa pra fazer, senão vou cair num tédio insuportável! Aí mexi numas células, coisa aqui e ali, muitos fenômenos químicos e físicos, e quando vi aconteceram umas explosões malucas. Coisa linda de ver! Aí depois surgiu uma imensidão de água, com superfície, e eu pensei "noooossa, que que é isso, mano?" Haha Mas era bem bonito. Visto de cima, então, uma obra de arte.


Mas pera, você não criou o planeta Terra em seis dias e descansou no sétimo, como diz na Bíblia?
Uau, vou entender isso como um elogio! Esse planeta levou 4,5 bilhões de anos pra adquirir a forma que tem e você diz que eu fiz em seis dias! Rapaz! (risos). Mas falando serio, essa história de fazer em seis dias e descansar no sétimo é só uma lenda. Uma "alegoria", se você prefere. Até porque uma das atribuições de Deus é nunca se cansar, e mesmo que eu cansasse não tenho onde tirar férias! 


Mas e a história de Adão e Eva, paraíso, pecado, etc?
Sabe que já li essa história e achei até fofa? Tão bonitinha, homem e mulher peladinhos num Paraíso cheio de plantas bonitas, animaizinhos pulando pelos campos, borboletas por todos os lados, cobras voando... Mas essa história é meio fraquinha, sabe? Serve só como ilustração, mesmo! Além do mais, várias religiões tem histórias parecidas para explicar o início do mundo.


É verdade que seu povo preferido é Israel, descendentes de Abraão, Isaque e Jacó, povo para quem o Messias foi prometido, etc?
Ah, Israel já mudou tanto! De vez em quando Moisés me conta umas histórias tão engraçadas sobre esse pessoal. Até bezerro de ouro já fizeram! Ainda bem que hoje em dia é um país evoluído, rico, com gente bonita. Só podiam ser menos violentos, né? Ainda mais com os palestinos! Deixa aquele pessoal construir casa na Faixa de Gaza, poxa! É até melhor pra dar uma vida naquele lugar, só tem areia naquilo! Ah, e pra vocês que são jovens, sabiam que eles tem umas baladas fantásticas lá? Já fui, mas não vou porque não suporto barulho. Já basta ter que suportar umas igrejas por aí que gritam o tempo todo. 


Tantas religiões foram criadas no mundo com o objetivo de chegar até você. É tão difícil assim?
Ué, você teve dificuldade de falar comigo?


Hmm, não!
Então, não sei porque essa gente complica tanto as coisas. Quando você quer falar com alguém o que você faz? Procura a pessoa e fala. Simples. Fala, pô! Tô ouvindo. Inventaram uma infinidade de religiões, rituais,  intercessores, fórmulas, caminhos, rezas, passos, receitas para falar comigo. As vezes eu dou risada, mas tem dias que me irrito com essas coisas. Vejo gente fazendo as maiores bizarrices pra falar comigo, subindo escada de joelho, andando quilômetros, e eu aqui, olhando para o infeliz e pensando: era só você começar a falar... 


Mas as vezes você demora pra responder...
Olha, não é que eu demoro pra responder. É que eu não respondo, mesmo! O WiFi no ceu não é dos melhores e o 4G da Tim é horrível, então as vezes fico sem Whats (risos). Brincadeiras à parte, gosto de ouvir as pessoas falarem comigo, mas não respondo ninguém. Até fico junto à pessoa, ao lado, seguro na mão e etc, mas não dou resposta. Prefiro não interferir na vida de ninguém, sabe? É melhor você mesmo procurar sua resposta dentro de você, com maturidade e responsabilidade. E nas decisões que você tomar #tamujunto (faz uma hashtag com os dedos indicador e médio das duas mãos).


Mas e as pessoas que se dizem "seus mensageiros"?
Não briguei com ninguém pra precisar de mensageiros pra falar alguma coisa. Se eu quisesse eu mesmo falaria com ela, ué. Só que não falo com ninguém, como já expliquei na pergunta anterior.


Você tem representantes na Terra?
Hmm, não. Prefiro eu mesmo tratar pessoalmente quando tenho alguma coisa pra resolver com alguém aí. Essa história de escolher representantes nem sempre dá certo. Esse pessoal distorce o que você diz, sabe. Sou adepto do "faça você mesmo".


E o Malafaia? Não te representa?
Quem é esse?


Silas Malafaia, da TV...
Não sei quem é. É algum participante desses realities de TV? Acho que nunca nem vi esse nome.


Não! Também é pastor, da Assembleia de Deus, etc.
Vixe, agora é que não sei mesmo quem é haha É que eu não tenho acompanhado muito esses pastores ultimamente, sabe? Não sei quem ainda é, quem deixou de ser, quem virou pastor agora. Como essa gente briga, né? Separam, brigam e separam de novo, depois brigam e separam mais uma vez... Ah, desisti! Falei: "quer saber? Se resolvam aí que eu tô em outra".


Em outra? Em qual?
Não, não é em nenhuma outra igreja! Agora me considero uma "personal God". Chique, né? Gosto de acompanhar esses que me procuram por conta própria, sem o agenciamento de nenhum líder nem a autorização de nenhuma religião. 


O que acha do Papa Francisco?
Ai, amo ele! Ele tem uma cara engraçada, né? Parece que quer rir o tempo todo. Fofo! São Francisco de Asis adora ele.


Mas na Idade Média se acreditava que a Igreja Católica era sua representante na Terra, e o Papa era representante de Jesus.
Claro que não! Já viu as roupas que aqueles Papas usavam? Se quando eu vim da primeira vez fiquei no meio do mato num frio da por... Eita, não posso falar palavrão. Enfim, fiquei num frio terrível, porque eu iria agora querer luxo, ostentação?


Aliás, só agora percebi que estou lhe chamando de você o tempo todo. Os judeus antigos tinham tanto cuidado, sequer pronunciavam seu nome, e eu lhe chamando de "você"...
Mas pode chamar. Sou de casa haha Antigamente tinham tanta chatice com meu nome. Até entendo que era por respeito e tals, mas nossa, nem precisava de tanto. Pode me chamar de você, vc, moça, Deus, como quiser! rs


Você ama os gays?
Nossa, sabe que eu A-DO-RO essa alegria toda deles? Por que eu teria algo contra a homossexualidade?


Mas não dizem que é pecado o casamento entre pessoas do mesmo sexo?
Olha, sendo entre humanos, a decisão é de vocês. Homem e homem, mulher e mulher, homem e mulher, dois homens e uma mulher, fiquem à vontade. Só me convida pra cerimônia. Eu amo casamentos! Ah, e não é por nada não, mas quando eu vou nas festas as vezes faço um open bar de vinho... hahaha


E é a favor de eles adotarem crianças?
E o que há diferente em um gay que o impeça de fazer alguma coisa que um hétero faz? Adotem crianças, adotem animais, cuidem de velhos, comprem, vendam, façam o que vocês bem entenderem. 


A vida no ceu não é meio tediosa?
Olha, tava ficando, viu! Aí chamei uma galera boa aqui e a coisa ficou mais animada. Há pouco tempo chegou aquele cara que fazia aquele jornal, alguma coisa Rezende. Chegou na porta gritando "corta pra mim aqui, Deus". O pessoal se irritou na hora, mas ele é de boa. Entrou sem problemas. Quanto a coisa aqui ser tediosa, no geral não tenho do que reclamar. Tenho boa música - aliás, como a Amy Winehouse canta bem, hein?! E Janis Joplin, então? Maaaano! E semana passada Renato Russo fez um acústico aqui pra gente, coisa finíssima!  Tô bem acompanhado. Agora tô muito afim de trazer o Sílvio Santos pra cá. Imagina ele e Hebe juntos? Mas o cara não dá brecha. Difícil!


Deus, alguma coisa te chateia?
Hmm, não muitas coisas, viu? Sou bem resistente. Mas tem coisas que as vezes me deixam meio assim, tipo quando vejo alguém se desmerecer, se sentir menor do que realmente é. Tipo mulher que se sente inferior por ser negra, por ser pobre, por ser mãe solteira, por ser baixinha, gordinha, e por aí vai. Olho pra pessoa e penso: véi, cê tem tanto potencial, tão inteligente, tão linda, tão forte, e se desmerecendo assim? Vai pra cima. Passa por cima do passado, vence o que te puxa pra baixo. Não existe situação, sofrimento, trauma do passado que tenha força o suficiente de te segurar. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Eu tô do seu lado sempre. Se sua intenção é boa, eu tô do seu lado. Vamos, caminha! Vai em frente!


Já que você falou em traumas e sofrimentos, preciso perguntar: porque as pessoas sofrem? Por que parentes queridos morrem, enfim, por que há o sofrimento?
Veja bem, eu não sou a pílula que trás felicidade instantânea. O nome disso é Viagra (risos). Mas falando sério, o mundo é difícil mesmo, cara. Tirando eu e a Avril Lavigne, todos vão envelhecer. A morte é a única certeza desse mundo. Alguns irão mais cedo do que deviam, outros depois de viverem muitas experiências. Alguns de forma injusta, vítima de violência, bala perdida. Sabe como se chama isso? Existência humana. faz parte da vida, cara. Uma vez que você nasceu, tá sujeito a essas coisas, infelizmente. Eu seria muito babaca se ficasse controlando um por um na forma como leva a vida, protegendo, evitando passar por sofrimento. O que vocês devem pensar quando perdem um parente querido é o seguinte: ao invés de lamentar pela morte dele, se lembre dos momentos bons que teve com essa pessoa. E são esses momentos bons que vão te fazer ver a vida de outra forma. É tão bom ter boas lembranças de alguém, não é? E, nessas boas lembranças, conte com meu abraço, meu aperto de mão, meu apoio. Saudade é um dos sentimentos mais puros e nobres da humanidade. Aproveitem, desfrutem a saudade, ela é linda!

Pra encerrar: você existe mesmo?
Sabe que as vezes tenho essa dúvida? Não tem espelho no ceu pra eu me ver, cara, acredita? As vezes eu fico pensando: será que eu sou mesmo Deus, o Todo Poderoso Jeová ou sou só uma louca, igual aquele Inri Cristo? Sei lá, mas em todo caso vou levando. Um dia a gente descobre. Ou não, vai saber...

A Oração do Pai Nosso, segundo os cristãos brasileiros contemporâneos





Pai Nosso que estás no céu mas que daí de cima, de forma ditatorial e com mão de ferro, controla cada canto do universo e cada ação humana.

Santificado seja o Teu Nome, custe o que custar e doa em quem doer.

Venha a nós, e apenas a nós que concordamos com a doutrina ensinada e criada em nossas igrejas, o Teu Reino; aos demais, apenas o inferno. 

Seja feita a Tua Vontade, assim na terra como nos ceus, exceto se Tua Vontade for diferente do que diz o estatuto de nossas igrejas; nesse caso prevalecerá a Nossa Vontade, em detrimento da Tua.

O pão nosso de cada dia nos dá hoje, para que possamos sustentar com luxo nossos pastores que vivem do nosso dízimo e das nossas contribuições.

Perdoa as nossas dívidas, mas não na mesma medida com que perdoamos a quem nos deve, pois preferimos praticar a Lei de Talião, sendo sempre "olho por olho, dente por dente". 

Não nos deixeis cair em tentação para que, da forma hipócrita como fazemos, possamos esconder nossa vontade de praticar coisas que a Igreja diz serem erradas e condenar os que tem liberdade para fazer. 

Livra-nos do Mal, e permita-nos definir o que é o mal, para que possamos combater com veemência tudo aquilo que achamos que não seja certo, mesmo que sejam coisas inofensivas que não atinjam ninguém, mas ferem nosso orgulho.

Porque Teu é o Reino, o Poder e a Glória, mesmo que na Terra nós nos comportemos como se tudo isso pertencesse aos líderes das grandes igrejas. 

Amém. 

A Vida Não É Igual a Friends




Sim, é mais fácil passar um camelo no fundo de uma agulha do que encontrar uma pessoa que ainda não tenha assistido a pelo menos um episódio de Friends. O longevo seriado americano criado por David Crane e Marta Kauffmann, que foi gravado entre 1994 e 2004, ainda hoje continua sendo o enlatado mais eficiente na função de prender a atenção de pessoas ao redor do mundo (o ocidental, pelo menos). Friends conta a história de um grupo de amigos – Rachel, Monica, Phoebe, Joey, Chandler e Ross - que passam, sempre juntos, por situações complicadas do cotidiano. Novo emprego, novo amor, novos sonhos, expectativas, dificuldades de relação coma família, tudo é vivido em conjunto pelos amigos, que trocam suas experiências e se ajudam – ou não – nas mais variadas situações. 

Talvez seja esse o segredo de Friends: mostrar a realidade de qualquer jovem, seja americano, brasileiro, inglês. Guardadas as devidas proporções, quem nunca passou pelas situações mostradas na cena? Todos nós temos nosso momento de crise, e a série mostra exatamente como cada um de nós reagiria diante de situações adversas. É difícil não se identificar com algumas das situações muito bem retratadas na série. Quem nunca se sentiu meio bobo diante de um amor, como a Rachel? Ou quem nunca foi um “forever alone” como Joey? Ou ainda quem nunca tentou agradar uma mulher e viu tudo dar errado como o “fofo” Ross? 

O grande problema é o ambiente que a série cria, que nem sempre será uma realidade para todos. Em Friends a vida é baseada no convívio entre bons amigos, que sempre estão disponíveis um para o outro, seja para se ajudar, seja apenas para tomar um café no Central Perk. A vida em Friends é uma vida de pessoas bem relacionadas, com amizades bem construídas. Cada um ali é “amigo do peito” do outro, o “amigo certo das horas incertas”, para quem se confidencia os segredos mais profundos, para quem se conta as dúvidas mais inquietantes. Isso é muito bom quando você tem um amigo do tipo. Mas nem sempre esse amigo existe. 

Uma das grandes realidades de qualquer pessoa é o famoso “período de solidão” que cada um de nós enfrentamos, quando nos vemos diante de situações complicadas e tendo que tomar decisões “sozinhos”. Sim, tem momentos na sua vida em que é você e pronto. Você não vai ter uma Jennifer Anniston pra chamar de sua e deitar no ombro enquanto desabafa sobre suas dúvidas (bem que eu queria... rs). Maturidade, na verdade, é isso: saber tomar decisões e encaminhar as coisas mesmo quando você não tiver a quem consultar. Se fosse para consultar alguém sempre você não precisaria sair da casa dos seus pais, correto? 

Friends acaba por nos passar a ideia de que a vida só é perfeita quando você tem um grupo de amigos com quem contar o tempo inteiro. Por mais bem relacionado que você seja, por mais amigos e mais contatos no WhatsApp que tenha, você vai passar por situações em que não vai ter ninguém para chamar. Essa ideia de um mundo perfeito onde todos são bem relacionados o tempo inteiro, onde você sempre vai ter uma "best" ou um "brother" é uma ilusão que só existe em seriados e novelas teen, e trazer essa ideia para a vida real pode ser perigoso, pois pode resultar em frustração e decepção. 

Enfim, a série tem seu valor, tanto que durou dez anos sempre batendo recordes de audiência e com atores recebendo valores na casa do US$ 1 milhão por episódio. Mas deve ser vista como um bom entretenimento. Só isso.